Misericórdias escolhidas para projeto-piloto nacional querem transformar o apoio domiciliário numa resposta mais próxima, integrada e humana para as famílias

Há muito que as Misericórdias perceberam que o apoio domiciliário tradicional deixou de chegar para muitas das situações que encontram diariamente nas casas das pessoas. O envelhecimento da população, o aumento das demências, das doenças crónicas e da dependência vieram alterar profundamente a realidade social do país e criar novos desafios para instituições que trabalham há décadas em proximidade com os mais frágeis.

Em muitos casos, os idosos querem continuar em casa, as famílias desejam evitar a institucionalização e os hospitais precisam de libertar camas ocupadas por pessoas que já têm alta clínica, mas que não dispõem de apoio suficiente para regressar ao domicílio em segurança. Pelo meio, acumulam-se cuidadores exaustos, territórios envelhecidos e respostas sociais que tentam adaptar-se a um país diferente daquele para o qual foram originalmente desenhadas.

É neste contexto que surge o SAD+Saúde, o novo projeto-piloto nacional que arranca em meados de junho em cinco instituições particulares de solidariedade social (IPSS) do país, entre elas três Misericórdias: Mora, Arganil e Portimão.

Mais do que reforçar o apoio domiciliário tradicional, o projeto pretende testar um novo modelo de acompanhamento, integrando cuidados sociais e de saúde, equipas multidisciplinares, apoio permanente e articulação com o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Um modelo pensado para responder a situações de maior dependência, permitindo que mais pessoas permaneçam em casa com segurança, acompanhamento e dignidade.

Nas Misericórdias escolhidas, há um sentimento comum: o de que esta experiência representa não apenas uma oportunidade, mas também o reconhecimento de um trabalho que muitas destas instituições já vinham desenvolvendo silenciosamente no terreno.

Responder à dependência real

Na Misericórdia de Mora, Diana Pinho, coordenadora-geral da instituição e responsável ligada à candidatura, fala num momento há muito esperado. “Isto representa o concretizar daquilo que andamos a defender há muito tempo”, afirma.

A responsável explica que o modelo tradicional de apoio domiciliário já não consegue responder aos níveis de dependência atualmente encontrados. “As pessoas quando ainda estão ativas acabam por participar noutras respostas, mas quando realmente ficam dependentes quase já precisam de lar, porque o apoio domiciliário, tal como existe hoje, não consegue dar resposta.”

Num concelho envelhecido, distante dos grandes centros e onde o hospital central fica a cerca de 60 quilómetros, a necessidade de respostas intermédias tornou- -se particularmente evidente. “O centro de saúde já não funciona 24 horas por dia e houve alturas em que nem estabilidade de médicos tínhamos”, recorda.

Para Diana Pinho, o SAD+Saúde surge precisamente para preencher esse vazio, permitindo que pessoas em situação de maior fragilidade possam permanecer mais tempo em casa, acompanhadas por equipas capazes de responder também na área da saúde.

“Vai ser um alívio muito grande para os cuidadores informais”, diz. “Ter alguém disponível durante a noite, durante o dia, a qualquer hora, ou que possa chegar rapidamente ao domicílio, vai fazer diferença.”

A Misericórdia de Mora integra ainda no projeto uma forte componente ligada às demências, área onde já desenvolve o programa “Morar com Memória”, apoiado pela Fundação Gulbenkian.

O interior que inova

Também em Arganil, no interior da região Centro, o projeto é encarado como uma continuação lógica de um percurso iniciado há muitos anos. Inês Xavier, assistente social e futura responsável técnica pela nova resposta, considera que a seleção da instituição representa “a validação de um caminho construído ao longo de duas décadas”.

Ao longo dos anos, a Misericórdia de Arganil participou em vários projetos de inovação social, desenvolvendo soluções de teleassistência numa altura em que este tipo de acompanhamento ainda era raro em Portugal. Chegou mesmo a apoiar cerca de 150 idosos através desse sistema.

“O facto de um concelho do interior integrar uma experiência- -piloto nacional demonstra que os territórios de baixa densidade também têm capacidade de inovação, competência técnica e visão estratégica”, sublinha.

A instituição já assegura apoio domiciliário contínuo todos os dias da semana, incluindo fins de semana e feriados, e dispõe de cuidados de enfermagem no domicílio, acompanhamento médico e até uma equipa de ação paliativa criada através do projeto “Dar Sentido aos Dias”.

Agora, o SAD+Saúde permitirá consolidar e estruturar muitas dessas respostas numa lógica de acompanhamento permanente.

“Vai existir uma equipa preparada para responder rapidamente a situações de emergência ou agravamento do estado de saúde”, explica Inês Xavier. “Não se trata apenas de monitorizar à distância, mas de garantir efetivamente intervenção rápida no terreno.”

A responsável considera que o envelhecimento trouxe novos níveis de complexidade que exigem outro tipo de respostas. “Hoje acompanhamos pessoas que vivem mais anos, mas com níveis de dependência muito mais elevados, doenças crónicas associadas e necessidades de saúde mais complexas.”

Por isso, acredita que o apoio domiciliário já não pode ser visto apenas como uma resposta social básica. “O SAD+Saúde introduz uma abordagem integrada, onde os cuidados sociais, a saúde, a teleassistência e a capacidade de intervenção funcionam de forma complementar.”

Um novo ciclo em Portimão

No Algarve, a Misericórdia de Portimão encara este projeto como um novo ciclo depois dos anos difíceis da pandemia. João Correia, provedor da instituição, fala num “recomeçar” depois de um período marcado pela necessidade de recuperar equilíbrios financeiros, organizacionais e humanos. “Este projeto permite-nos voltar a crescer e a inovar”, afirma.

O responsável considera que o apoio domiciliário tem vindo naturalmente a transformar-se ao longo das últimas décadas, mas entende que o SAD+Saúde representa um salto qualitativo importante.

“O apoio domiciliário já não é o mesmo de há 30 ou 40 anos. Esta é uma oportunidade de crescer numa resposta que será cada vez mais importante no futuro”, refere.

Na prática, a Misericórdia de Portimão prepara-se, à semelhança das suas parceiras, para criar uma equipa profissional para acompanhar até 30 utentes. O desafio, admite João Correia, será significativo, sobretudo numa região onde o turismo absorve grande parte da mão de obra disponível. “Estamos numa altura em que a hotelaria recruta muita gente e teremos de conseguir ser atrativos”, reconhece.

Ainda assim, acredita que a necessidade deste tipo de resposta é evidente. “Muitas vezes há pessoas internadas com alta clínica que não regressam a casa porque não existe um apoio domiciliário com esta dimensão social e de saúde.”

A articulação com a Unidade Local de Saúde do Algarve será, por isso, uma das áreas decisivas para o sucesso do projeto. “Temos orientações, mas agora no terreno temos de construir metodologias de trabalho articuladas”, afirma.

Um novo paradigma do cuidado

Apesar das diferenças territoriais, as três Misericórdias coincidem em vários pontos: o envelhecimento está a tornar os cuidados domiciliários mais complexos, os cuidadores informais encontram-se frequentemente sobrecarregados e os sistemas de saúde e sociais precisam de trabalhar de forma mais integrada.

Também os desafios são semelhantes. O recrutamento de profissionais, a sustentabilidade financeira e a necessidade de criar novas culturas de cooperação entre instituições sociais e estruturas de saúde surgem como obstáculos comuns.

Mas prevalece uma convicção partilhada: a de que este projeto pode ajudar a mudar o paradigma do apoio domiciliário em Portugal. “O que conseguirmos agora poderá demonstrar que é possível construir respostas mais próximas, preventivas e humanizadas”, afirma Inês Xavier.

João Correia fala igualmente na responsabilidade associada a esta experiência-piloto nacional. “Continuamos a querer inovar e adaptar-nos às novas realidades para responder às necessidades das populações.”

Já Diana Pinho acredita que o caminho passa inevitavelmente por aproximar mais os cuidados de saúde das casas das pessoas, sobretudo em territórios envelhecidos e do interior.

No fundo, as três instituições convergem na mesma ideia: envelhecer em casa, rodeado por rotinas, memórias e afetos, deve ser possível mesmo em situações de maior dependência e talvez seja precisamente essa a principal ambição do SAD+Saúde.

Voz das Misericórdias, Rosário Silva