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- Alhos Vedros | Um Scrooge à portuguesa dá vida às obras de misericórdia
O avarento Scrooge, de “Um Conto de Natal”, a célebre história de Charles Dickens, ganhou uma nova vida em Alhos Vedros. Em vez do velho comerciante londrino, entra em cena Vasco Vasconcelos, um empresário bem-sucedido no negócio dos vinhos, agarrado ao dinheiro e pouco dado a preocupações com os outros. A personagem tem umas quantas tiradas divertidas e até faz lembrar o inesquecível Vasco Santana. Mas tal como na história que a inspirou, o que está verdadeiramente em causa é aprender a olhar para quem nos rodeia.
A adaptação serviu de ponto de partida para uma peça dedicada às 14 obras de misericórdia, criada pelos animadores da Santa Casa de Alhos Vedros para assinalar os 526 anos da instituição. A ideia era explicar valores como alimentar quem tem fome ou cuidar de quem precisa, sem transformar o espetáculo numa lição formal.
“Tentou-se fazer um teatro que não fosse muito maçudo e que se tornasse alguma coisa mais engraçada e mais fácil”, explica Luís Nunes, animador na unidade de cuidados continuados da instituição e intérprete de Vasco Vasconcelos. A inspiração em Dickens surgiu durante a procura de uma forma criativa de dar corpo às obras da misericórdia, através de uma linguagem capaz de chegar a idosos, pessoas doentes e crianças.
O texto e a decoração foram preparados pelos próprios trabalhadores, numa criação coletiva que nasceu do desafio lançado pela Mesa Administrativa. Para o provedor, Miguel Canudo, a intenção era “assinalar a data de maneira diferente”, envolvendo utentes e famílias, em vez de ficar por uma celebração institucional.
Depois da estreia na capela da Misericórdia, o espetáculo chegou ao Lar Abrigo do Tejo, na Moita, onde juntou utentes e crianças da Creche O Varino. A sessão contou ainda com dois momentos musicais: Flávia Pessoa, funcionária do lar e fadista amadora, abriu e encerrou a apresentação com dois fados, escolhidos a pensar no gosto dos mais velhos.
Para Nazaré Martins, animadora do Lar Abrigo do Tejo, a peça conseguiu transformar conceitos que, por vezes, parecem distantes numa experiência próxima. “Dá a sensação de que são só frases”, observa, referindo-se à forma como as obras de misericórdia são habitualmente apresentadas. O teatro ajudou a explicar o seu significado e despertou a curiosidade das crianças, que vão realizar, posteriormente, trabalhos relacionados com o espetáculo.
Isabel Guerreiro, ligada à animação e ocupação do Lar São José Operário, na Baixa da Banheira, destaca a importância de criar momentos que contribuam para o bem-estar dos utentes. Nuno Oliveira, animador no Lar Pedro Rodrigues da Costa, em Alhos Vedros, espera que a iniciativa possa repetir-se noutras datas e chegar a outras instituições; de resto, uma possibilidade que está em cima da mesa.
Cuidar também precisa de tempo
No Lar Abrigo do Tejo, a diretora técnica, Sónia Sena, acompanha três respostas sociais: estrutura residencial para pessoas idosas, com capacidade para 60 pessoas; centro de dia, com 25 lugares; e apoio domiciliário, para 50 pessoas. A encarregada-geral, Vitália Mendes, integra a equipa que assegura o funcionamento diário do equipamento.
Sónia Sena identifica como principais desafios o aumento da dependência dos utentes, a subida dos custos e a dificuldade em recrutar trabalhadores. “As pessoas vêm cada vez mais dependentes, muitas vezes já no limite da capacidade das famílias”, explica. As necessidades de acompanhamento são maiores, mas nem sempre existem recursos humanos suficientes para responder com a atenção desejada.
Psicóloga de formação, a diretora técnica gostaria de contar com mais técnicos e tempo para acompanhar individualmente cada utente e atualizar os respetivos planos de cuidados. “Nós sentimos muito que apagamos fogos”, reconhece, descrevendo um quotidiano em que as urgências nem sempre deixam espaço para o acompanhamento que considera essencial. “Precisamos de tempo para estar com as pessoas”, sublinha.
A dificuldade em contratar trabalhadores preocupa igualmente o provedor. A Santa Casa da Misericórdia de Alhos Vedros acompanha cerca de 780 utentes e conta com aproximadamente 400 trabalhadores, distribuídos por duas creches, três lares, apoio domiciliário, centros de dia e uma unidade de cuidados continuados. O aumento da complexidade dos cuidados, associado às condições exigentes da profissão, torna mais difícil recrutar e manter profissionais.
Apesar dos constrangimentos, a instituição tem projetos em perspetiva. Entre eles está a criação de um novo lar com capacidade para 110 utentes, cuja concretização depende da obtenção de financiamento e apoios. O objetivo é reforçar a resposta às necessidades da população e melhorar os serviços prestados.
No balanço dos 526 anos, o provedor apela aos poderes públicos para que reconheçam o trabalho desenvolvido ao longo de gerações.
Voz das Misericórdias, Rosário Silva