Homenagem póstuma reuniu familiares, autarcas, Misericórdias e amigos para recordar uma personalidade que marcou a vida da comunidade

A Santa Casa da Misericórdia de Arganil inaugurou um busto do seu antigo provedor, José Dias Coimbra, falecido em 2024. A homenagem póstuma reuniu familiares, autarcas, Misericórdias e amigos para recordar uma personalidade que marcou a vida política, social, educativa e cultural de Arganil e da Beira Serra.

O legado deixado por José Dias Coimbra na instituição e a defesa da natureza foram igualmente destacados na tarde de 4 de julho, no requalificado Jardim Condessa das Canas, numa cerimónia conduzida por Nuno Gomes, vice-provedor.

Uma frase retirada do livro “José Dias Coimbra – Um Orgulho Desmedido”, apresentado em julho de 2024, em memória do antigo autarca local (entre 1964 e 1974 e também a partir de 1979) e anterior provedor da instituição (durante 40 anos), acabou por servir de mote à homenagem póstuma que Arganil novamente lhe prestou.

Foi precisamente essa ideia de pertença que atravessou as intervenções. José Dias Coimbra nasceu em Pampilhosa do Botão (no concelho da Mealhada) e faleceu, aos 89 anos, em janeiro de 2024, quando desempenhava o cargo de presidente da Assembleia Geral da Misericórdia de Arganil. Jovem professor primário, chegou a Arganil em 1955, mas rapidamente se tornou parte da comunidade, assumindo responsabilidades políticas, sociais e institucionais e deixando uma obra que, para os participantes na homenagem, permanece visível.

O atual provedor Misericórdia de Arganil, António Carvalhais da Costa, traçou um retrato de José Dias Coimbra como “homem de convicções”, dotado de “perspicácia para ler para além dos outros”, cuja influência ultrapassou largamente o exercício dos cargos que ocupou. Evocou o professor, o autarca, o provedor, mas sobretudo o homem que colocou a missão à frente dos interesses pessoais.

Entre os principais legados apontados estiveram o contributo para a instalação do ensino secundário em Arganil, a criação da Telescola, a preservação da Mata da Margaraça (área florestal com vestígios de vegetação primitiva), o desenvolvimento da Zona Industrial da Relvinha (em Sarzedo, no concelho de Arganil), o impulso a equipamentos sociais e culturais e a participação na criação e consolidação de estruturas de âmbito regional e nacional.

Também na Misericórdia, onde entrou como irmão em 1959, José Dias Coimbra deixou uma marca profunda. António Carvalhais destacou a criação e desenvolvimento de respostas sociais e a sua preocupação em preparar novas lideranças.

A dimensão humana foi particularmente sublinhada pela filha, Maria Assumpta Pimenta Dias Coimbra. Agradecendo a presença dos que quiseram associar-se à homenagem, interpretou-a como “reconhecimento da sua obra e como amizade ao [seu] pai”.

Maria Assumpta Coimbra recordou a ligação do pai à Mata das Misericórdias – antiga lixeira do hospital e espaço que considerava necessário preservar – e aproveitou para defender a importância de uma relação mais próxima com a natureza numa época marcada pelo avanço da tecnologia, da inteligência artificial e das redes sociais.

A filha evocou ainda o particular significado que o pai atribuía à palavra “orgulho”. Apesar de nunca ter tido uma rua ou uma placa com o seu nome em Arganil, dizia sentir orgulho pelo trabalho realizado. Não como sinal de superioridade, explicou, mas “no sentido de dever cumprido”.

Também António Sérgio Martins, presidente do Secretariado Regional de Coimbra da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), destacou esse “orgulho imenso”, considerando que José Dias Coimbra se sentiu realizado nas dimensões humana, política e social. Sublinhou, sobretudo, a forma como Arganil o acolheu e como a sua visão ultrapassou os limites do concelho. Para António Sérgio, a dimensão política de José Dias Coimbra revelou-se numa capacidade de pensar para lá do território. A criação da Associação Nacional de Municípios Portugueses e da Associação de Informática da Região Centro (AIRC) foram apontadas como exemplos de uma visão “muito para além do seu tempo”.

O dirigente regional da UMP deixou ainda uma reflexão sobre o papel das Misericórdias e a relação com o poder local, defendendo que “descentralização não é municipalização” e que os municípios devem ouvir quem está diariamente no terreno, junto das populações.

Carlos Andrade, vice-presidente da UMP, colocou a homenagem numa perspetiva mais ampla: a história de 528 anos das Misericórdias e a capacidade que estas instituições tiveram para permanecerem atuais.

“As Misericórdias sempre tiveram a capacidade para estar na linha da frente”, afirmou, destacando a sua aptidão para responder a necessidades novas com respostas novas. Nesse percurso, considerou que José Dias Coimbra soube manter a Misericórdia de Arganil fiel à sua tradição, mas simultaneamente “moderna” e “contemporânea”.

Carlos Andrade apontou ainda outra razão para a longevidade das Misericórdias: a capacidade de escolherem para as suas lideranças “os melhores da comunidade”, os chamados “homens-bons das terras”. E, nesse contexto, não hesitou em colocar José Dias Coimbra entre eles: “Representava um dos seus melhores.”

Refira-se também que José Dias Coimbra foi agraciado, em 2008, pelo então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, com a Comenda de Ordem Infante D. Henrique, em cerimónia do Dia de Portugal. Em setembro do mesmo ano, recebeu a Medalha de Ouro do Concelho de Arganil.

A recente homenagem foi ainda marcada pela evocação das perdas pessoais que atravessaram a vida de José Dias Coimbra, nomeadamente a morte da mulher, Maria Ondina, e do filho, José Miguel, em junho de 1987. Para a filha, essas experiências, juntamente com a educação familiar, a profissão, a intervenção política e as viagens que realizou por todos os continentes, contribuíram para formar uma personalidade mais aberta e empática.

Maria Assumpta resumiu esse legado numa perspetiva ética e cívica, definindo o pai como alguém que assumiu “uma cidadania ativa, responsável e, sobretudo, humana”, orientada pela dedicação aos outros, à natureza e à concretização dos valores em que acreditava.

No final, a homenagem deixou também um desafio para o futuro. O provedor António Carvalhais considerou que a cerimónia ficaria incompleta enquanto não fossem concretizadas algumas das aspirações associadas ao legado de José Dias Coimbra, nomeadamente a inscrição do seu nome na Escola Secundária de Arganil, a recuperação do Cineteatro Alves Coelho e a entrada em funcionamento do Hospital Condessa das Canas, recuperado para integrar a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados.

O busto, da autoria do artista poiarense Paulo Pinheiro, agora colocado no jardim da Misericórdia pretende, assim, ser mais do que uma evocação do passado. É uma forma de manter presente uma obra e uma personalidade que os intervenientes consideram parte da identidade de Arganil e da Beira Serra.

Voz das Misericórdias, Vitalino José Santos