Durante congresso sobre cuidados continuados, especialistas criticaram atual modelo de financiamento e funcionamento da RNCCI

A inteligência artificial (IA) vai permitir agilizar processos de gestão em saúde e baixar custos nas unidades de cuidados continuados. Esta foi uma das ideias defendidas no III Congresso Ibérico em Cuidados Continuados Integrados, que aconteceu a 14 e 15 de outubro, em Bragança.

O médico e professor da Faculdade de Medicina do Porto, Rui Nunes, afirmou que “vai haver uma alteração radical de todo o modo como se providencia este tipo de cuidados” na saúde e no setor social, graças à utilização da IA, que vai permitir “agilizar a gestão de recursos humanos, dos dossiês clínicos e a prescrição de medicamentos”.

“Nos cuidados continuados e nos paliativos, a inteligência artificial vai originar alterações na organização do sistema porque, ao agilizar procedimentos, vai permitir uma maior integração de cuidados em todos os setores”, afirmou, acrescentando que a sua utilização poderá permitir a diminuição dos custos.

De acordo com o vice-presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), Humberto Carneiro, a IA pode ser uma ajuda porque “o atual sistema informático ocupa cerca de 17% do tempo de médicos e enfermeiros que, se fosse canalizado para o cuidado direto ao utente, permitiria reduzir o número de horas prestadas”. Além disso, pode otimizar custos, uma vez que o modelo de financiamento e funcionamento da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) atravessa “desafios significativos”.

Criadas há 20 anos, as tipologias de cuidados continuados são deficitárias. O Orçamento do Estado para 2027 já prevê um aumento de 2% no financiamento das unidades, mas o vice-presidente da UMP entende que deveria ser entre 12 e 15%. Humberto Carneiro também defendeu “a junção da convalescença (30 dias) com a média duração (30 a 90 dias)”, o que iria permitir “uma redução dos recursos humanos” e ainda a alteração dos tipos de profissionais.

Ainda no que diz respeito ao financiamento da rede de cuidados continuados, o antigo diretor-Geral da Saúde, Francisco George, foi perentório: “É preciso rever, com urgência, o modelo de financiamento”, que deve ser atribuído com base “nos resultados e não na ocupação da cama”, um esquema que a nível internacional demonstrou “ser mais adequado”.

Além do baixo financiamento, a Misericórdia de Bragança apontou outra dificuldade: a contratação de profissionais de saúde. O provedor Duarte Fernandes adiantou que a falta de médicos no país obriga a instituição a contratar médicos tarefeiros. “Se houvesse médicos suficientes a nível nacional para o SNS e para os hospitais privados, naturalmente nós teríamos mais facilidade em arranjar alguém que quisesse trabalhar connosco”, disse.

Voz das Misericórdias, Ângela Pais