Escolinha de Rugby da Galiza reuniu 20 equipas e 250 jogadores à volta de uma bola oval e de uma causa maior do que um jogo

Escolinha de Rugby da Galiza reuniu 20 equipas e 250 jogadores à volta de uma bola oval e de uma causa maior do que um jogo

Ainda a praia de Carcavelos, em Cascais, despertava para mais um dia de verão quando começaram a surgir as primeiras mãos na areia. Em marcha estava o desenho da quarta edição do Carcavelos Beach Rugby, torneio de râguebi de praia onde não contam apenas os resultados dos jogos.

Às primeiras horas da manhã de 4 de julho, aquela praia urbana assistiu à reconfiguração de parte do areal, transformado em dois campos de râguebi. Antes do arranque dos jogos, havia linhas para marcar, tendas para montar, geleiras onde mergulhar garrafas de água e dezenas de tarefas invisíveis por cumprir.

Um jogo que começa antes da bola oval e dos jogadores pisarem a areia. Realizado por rostos invisíveis, é um trabalho silencioso e que raramente chega às fotografias e às estatísticas, mas que está presente em cada detalhe. É o trabalho de voluntariado.

Sem camisola de jogo, os voluntários foram os primeiros a chegar e os últimos a sair. Delimitaram os campos, ergueram tendas para as equipas, árbitros, médicos e fisioterapeutas e reservaram um espaço para a Liga Portuguesa Contra o Cancro.

Ao longo do dia, registaram resultados, encaminharam equipas, regaram a areia para aliviar o calor, distribuíram fruta, encheram arcas de gelo com dezenas de garrafas de água e fizeram-nas chegar a jogadores, treinadores e árbitros. Debaixo de um sol intenso, garantiram que ninguém ficasse para trás.

Foi este o retrato do Carcavelos Beach Rugby, organizado pela Escolinha de Rugby da Galiza (ERG), projeto da Santa Casa da Misericórdia de Cascais, que teve o apoio da Câmara Municipal de Cascais, da Junta de Freguesia de Carcavelos- -Parede e da Federação Portuguesa de Râguebi.

É precisamente esse espírito comunitário e ADN solidário que distinguem o torneio que faz da bola oval a protagonista de um dia normalmente reservado às bolas de Berlim. “Acima de tudo, é o voluntariado que diferencia este torneio dos outros”, afirma Maria Gaivão, presidente da Escolinha de Rugby da Galiza.

“Isto só é possível porque temos uma comunidade que trabalha, que se agrega, prepara, apoia e encontra soluções para conseguirmos concretizar este torneio”, explicou ao VM a responsável que dirige também o ATL da Galiza, da Misericórdia de Cascais.

De acordo com a responsável da ERG, clube que dá voz a quem mais necessita, o evento vive da disponibilidade de várias pessoas. “Há espaço para todos. E todos são necessários. Os fiscais de linha, quem organiza os campos, quem monta as tendas, quem prepara o almoço... tudo tem a mão de voluntários e amigos”, sintetizou Maria Gaivão.

 

20 equipas e um espírito

Cerca de “250 jogadores, 20 equipas, dos escalões seniores masculinos e femininos e sub-19 masculinos” inundaram o areal da praia urbana de Carcavelos. Os números foram avançados por Rómulo Ustá, coordenador da ERG, travestido por um dia em uma das mãos na sombra das dinâmicas do evento.

Entre as equipas presentes, a assinalar o regresso do Belenenses e do Sporting, além do São João da Talha, inscritos como “Jacarés”. No quadro feminino, marcaram presença o Direito, São Miguel e Benfica, esta última a competir sob o nome “Piranhas da Luz”.

A competição contou ainda com internacionais portugueses e antigos campeões nacionais (Benfica e Belenenses), elevando o nível competitivo sem retirar espaço à informalidade e ambiente descontraído que caracteriza o râguebi de praia. Do leque dos inscritos, houve também equipas formadas por amigos de diferentes clubes.

O objetivo, resume Rómulo Ustá, era proporcionar um dia de “diversão, alegria, festa e boas memórias”, mantendo viva a missão social da Escolinha de Rugby da Galiza, projeto representado em campo pela equipa dos Jaguares.

Uma causa maior do que o jogo

Ao início da tarde, quando o calor apertou, o torneio fez uma pausa. A interrupção, determinada pelas recomendações da Proteção Civil e da Direção-Geral da Saúde, colocou a segurança de atletas, voluntários e público acima de qualquer cronograma competitivo.

Entre jogadas e mergulhos na areia, o torneio acolheu ainda uma ação de sensibilização da Liga Portuguesa Contra o Cancro.

A instituição distribuiu borrifadelas de creme de proteção solar e deixou uma mensagem de prevenção do cancro da pele, reforçando uma ideia transversal ao dia: um torneio de râguebi pode ser, em simultâneo, uma competição a que se junta um gesto de solidariedade, um exercício de cidadania e um palco privilegiado para passar mensagens.

As finais, os troféus e as fotografias da praxe entraram em ação quando o sol começou finalmente a baixar sobre Carcavelos. Mas o verdadeiro retrato do dia talvez tenha ficado longe do pódio. Ficou nas mãos que desenharam os campos, transportaram as águas, apanharam o lixo, montaram as tendas, sempre na sombra e antecipando problemas.

Porque, no Carcavelos Beach Rugby, o resultado não surge apenas no marcador, mas pode medir-se pela capacidade de uma comunidade se juntar e construir algo em conjunto. “Uma festa da comunidade, feita com a comunidade”, resumiu Maria Gaivão.

Criada em 2006, a Escolinha de Rugby da Galiza também visa promover a solidariedade e a aceitação da diferença.

Voz das Misericórdias, Miguel Morgado