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- Coimbra | Misericórdias têm de mudar sem perder o que as distingue
Uma instituição com 526 anos só chegará aos próximos séculos se conseguir preservar os seus valores, adaptar-se às necessidades de cada época e, perante a revolução tecnológica, manter a decisão humana. Esta foi uma das principais ideias do painel “Raízes do Futuro”, integrado nas comemorações do aniversário da Misericórdia de Coimbra, que reuniu Carlos Andrade e Pedro Mota Soares, com moderação de Manuel Rebanda, presidente da Mesa da Assembleia-Geral da Santa Casa. No final, a mensagem comum ficou entre tradição e inovação: as Misericórdias terão de mudar para continuar a servir, mas não poderão perder aquilo que as distingue.
Na abertura da sessão, Fernando Regateiro, presidente da comissão organizadora, lembrou que celebrar mais de cinco séculos é “invocar e honrar a coragem, a ousadia, as alegrias e os sofrimentos” de quem construiu a instituição, bem como assumir a responsabilidade de projetá- -la no futuro.
Nascida em 1500, a Misericórdia de Coimbra atravessou fome, epidemias, guerras e crises financeiras e “soube sempre renascer”, afirmou Regateiro, destacando que “o verdadeiro património da Misericórdia de Coimbra está no coração das pessoas”.
O provedor, Tiago Mariz, centrou-se no presente e nos projetos da instituição. O último ano, reconheceu, foi marcado por “muitas dificuldades” – e também pelo desabamento parcial, já em fevereiro de 2026, da Cerca de Santo Agostinho após a depressão Kristin e as intensas chuvadas –, mas também por “muitos sonhos e sementes lançadas para projetos futuros”.
Entre as apostas estão o reforço da ligação à Universidade de Coimbra e o desenvolvimento do polo de Celas, no antigo Seminário dos Dehonianos, onde será instalado um centro de fisioterapia, consultas de psicologia e apoio psicossocial, incluindo a criação de uma horta social e a oferta de atividades desportivas.
Tiago Mariz anunciou também a criação do Centro de Infância e Juventude João Ornelas, no Colégio de São Caetano, na sequência de uma doação de um médico português residente nos Estados Unidos da América, neto de um antigo acolhido da instituição. A nova resposta deverá concentrar projetos orientados para processos de autonomização.
Carlos Andrade, vice-presidente da União das Misericórdias Portuguesas, colocou a questão da longevidade das Misericórdias. As obras de misericórdia, referiu, são uma das razões fundamentais para a sua sobrevivência, por serem “intemporais”. A outra está na ligação às comunidades.
“Para mim, as Misericórdias são das comunidades”, frisou. É essa ligação que permite adaptar as instituições às circunstâncias sem perder a identidade. “As Misericórdias, mesmo sendo antigas, nunca foram velhas”, sustentou.
Carlos Andrade apontou, contudo, vários desafios: sustentabilidade financeira, diversificação das fontes de financiamento, envelhecimento demográfico e, sobretudo, recursos humanos. “Estou convencido de que, hoje, este é o nosso maior problema”, declarou, referindo a dificuldade em contratar e em reter trabalhadores perante salários pouco competitivos.
“Eu vejo sempre com dificuldade que o país não reconheça que o trabalho de cuidar de uma pessoa teria de ser mais bem pago do que pôr arroz e massa numa prateleira no supermercado”, disse, advogando um pacto de valorização dos profissionais do setor social.
O dirigente apelou ainda a uma utilização mais intensa da tecnologia, apontando um projeto desenvolvido com o Instituto Superior Técnico, em que uma camisola inteligente transmite informação vital sobre o estado de saúde de uma pessoa. A solução poderá ajudar, por exemplo, a responder ao “medo de morrer sozinho”, sentido por muitos idosos em apoio domiciliário.
Mas a tecnologia foi também apresentada como um dos grandes riscos do futuro. Pedro Mota Soares considerou que a sociedade está já no centro da “4.ª Revolução Industrial”, com uma diferença decisiva face às anteriores: “O que estamos neste momento a substituir é a capacidade de decisão humana, de juízo humano, de sensações humanas”.
O advogado e vice-provedor da Misericórdia de Cascais advertiu que os algoritmos “não são neutros” e podem ser “opacos”. Para o setor social, o risco é particularmente elevado, porque a transformação tecnológica pode criar “um conjunto de novos desfavorecidos” e novos excluídos, quer do mercado de trabalho, quer de uma sociedade cada vez mais digital.
Voz das Misericórdias, Vitalino José Santos