Às sete artes clássicas (pintura, escultura, arquitetura, música, literatura, dança e cinema), segue-se a fotografia como oitava. Talvez seja que neste lugar do cânone – ou, na verdade, antes de todas elas – haja lugar para a arte humana necessária à inclusão de todas as pessoas para a própria prática artística. Por isso, existe quem esteja dedicado a não deixar ninguém de parte, tanto do lado da criação como do lado do público, com um compromisso social sempre vincado. De norte a sul do país, são vários os casos de ligação entre Misericórdias e artistas firmes na tentativa de fazer diferente e de fazer melhor, abraçando a diferença.
A ideia é simples: criar o máximo de afluentes possíveis, para que o caudal aumente e as margens sejam parte integrante e não limitadora da água que corre. Remar contra a maré pode significar, por exemplo, o afastamento dos centros urbanos. Embora a população portuguesa se encontre altamente concentrada no litoral, com os seus dois maiores focos em Lisboa e no Porto, a fixação em terrenos com menor densidade populacional pode ser um caminho para aproximar arte e comunidade. Esse é o caminho da Malvada Associação Artística, que foi formada em Évora, em 2018, por Ana Luena e José Miguel Soares. Poucos anos antes a dupla de artistas residia no Porto e em Lisboa, respetivamente. Cada um pelo seu passo, e ainda sem se conhecerem, decidiram seguir rumo a Évora e lá, pela força do encontro, deram origem à Malvada. Longe dos principais centros urbanos, têm aprofundado a sua presença com comunidades que habitam num território cada vez mais desertificado e distante da prática artística. José Miguel Soares sublinha que nesse contexto de baixa densidade populacional “todas as pessoas são importantes”, evocando o “prazer de trabalhar com públicos que podemos chamar periféricos, marginais ou marginalizados”.
Ao terem uma presença ativa nestes territórios, tanto através da criação de espetáculos como pela mediação cultural, estabelecendo pontes entre a arte e o público, foi uma questão de tempo até esse caminho envolver uma Misericórdia: em 2020 colocaram-se em contacto com a Santa Casa do Alandroal e desde logo integraram a primeira candidatura como parceiros, numa iniciativa apoiada pelo Transforma - Programa para uma Cultura Inclusiva, da Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central, e cofinanciado pelo Fundo Social Europeu no âmbito do Alentejo 2020. O projeto resultou na exposição ‘Topofilias’, cujo significado reflete o elo de ligação entre uma pessoa e um lugar.
Cinco anos depois, foi a igreja da Misericórdia de Évora que recebeu a peça de teatro infantil ‘Excesso’, que transformou em palco o espaço diante do altar para falar aos mais pequenos do “excesso do lixo, das questões ecológicas, mas também do excesso de ecrãs”. A apresentação foi inserida na já habitual ‘Noite no Museu’, iniciativa que o Museu da Misericórdia tem organizado anualmente pela altura do dia da criança. Ali, a 31 de maio, uma parafernália excessiva e colorida marcava a dianteira da igreja com boias insufláveis e bolas de praia espalhadas, além de contar ainda com projeção ao vivo. Inundada de cores, com as crianças sentadas no chão de olhos e ouvidos atentos, a igreja da Misericórdia de Évora acrescentou ali “uma página do século XXI”, como diz José Miguel. Com os imponentes painéis de azulejo do século XVIII em volta, “naquele dia parecia bater tudo certo”.
E se falamos na tomada de espaços não convencionais, porque não fazer dum passadiço de 200 metros palco para uma peça de teatro? Ou, em vez de uma, seis ou sete? O projeto ‘Estações Efémeras’ possibilita isso, a partir de uma produção entre a companhia de teatro Leirena e o município de Figueiró dos Vinhos, que envolve o CAO da Misericórdia local.
Aproveitando o “património natural”, neste caso as Fragas de São Simão, ao longo de duas semanas Frédéric da Cruz, da companhia teatral, cria cinco cenas com os utentes do CAO e “em simultâneo seis artistas de teatro e circo contemporâneo estão em residência artística, também em Figueiró, a criar um solo”. O que daí resulta é “um espetáculo que deambula ao longo do passadiço” e nesses 200 metros o público alterna entre “um monólogo, uma cena feita pela comunidade, outro monólogo, outra cena feita pela comunidade”. Uma vez mais consolida-se num ponto só várias preocupações paralelas: a promoção da inclusão e da criação partilhada, a defesa do ambiente e a valorização da identidade cultural local.
Criada em 2010, a Leirena começou desde logo “a desenvolver projetos de teatro e comunidade por uma questão também de criação de públicos e de acessibilidade”, garantindo que todos os seus espetáculos “têm audiodescrição, língua gestual portuguesa e folha de sala em multiformato”, como diz o diretor da companhia, Frédéric da Cruz. “Nós temos uma missão de chegar a todos.”
A partir do outro projeto desenvolvido - ‘Colmeia’ - com o CAO da Misericórdia de Figueiró dos Vinhos, é concebido um espetáculo de raiz em conjunto com os utentes, onde as limitações não são obstáculos e há apenas uma regra: “tenho de meter no espetáculo a condição que eles têm. Não posso fechar os olhos à deficiência do outro”. Ao longo de uma semana, “a energia é de jogo, cumplicidade e erro”. É aberto um laboratório de brincadeira onde todos se podem enganar à vontade para depois até “usar muitos dos enganos que vão acontecer”. Nas palavras de Frédéric, os utentes entram nesse espaço “melhor que ninguém, porque eles não julgam, julgam-se mais a eles próprios. Mas quando estão em cena, fazem e voam”.
Embora esteja sediada em Leiria, a estrutura atua em nove concelhos distintos. Frédéric defende que “não podem ser questões geográficas que vão impossibilitar que as pessoas tenham acesso à cultura. Da nossa parte faz todo o sentido que estejamos em Ansião, em Alvaiázere, em Pedrógão, em Castanheira de Pêra, em Pombal. É claro que há uma deslocação grande, há toda uma pós-produção, uma pré- -produção louca, mas não faríamos de outra forma.”
E existe um outro plano de ação ao desenvolver este tipo de iniciativas, que se prende com “alterar o pensamento em torno da cultura nos decisores políticos”. “As próprias pessoas da comunidade começam a ver a cultura e o teatro não só como algo de espetáculos muito conhecidos e streamings, mas mais do que isso. A cultura é aproximação, união e bem-estar das próprias comunidades”. Sendo a Leirena uma estrutura financiada pela Direção-Geral das Artes, como a Malvada, Frédéric aponta que “a necessidade de criar públicos, de fazer a mediação” surge em parte porque “isto é um serviço público que estamos a prestar”.
Um espaço de pertença, com as suas gentes, é um pilar fundamental para o bem-estar de qualquer pessoa. As Santas Casas são, para muitas pessoas pelo país fora, esse lugar de casa e o que associações como a Malvada permitem é acrescentar espaços à casa, abrir as portas, deixar o ar circular com projetos sempre pensados para as pessoas que os integram. Como diz José Miguel Soares, “nós auscultamos aquilo que as pessoas têm para dizer acerca da vida delas, já tivemos muitos trabalhos de entrevistas. Aqui no Alentejo estamos a falar de pessoas com 80, 90, às vezes 100 anos, muitas estudaram até à terceira classe e depois foram guardar porcos. Ou seja, é uma realidade totalmente afastada da arte contemporânea. E é isso que nós como Malvada fazemos. O que pretendemos é colocar pessoas normais, ou que não são artistas profissionais, a criar arte connosco.”
Foi o caso nas oficinas fotográficas do projeto ‘LOOP’, como aponta a animadora sociocultural da Misericórdia de Évora, Rute Belga, em que os utentes “tiveram um papel muito ativo e criativo, porque perceberam como é que se monta uma exposição e, além de terem sido modelos, puderam ter contacto com a máquina fotográfica, fizeram fotografias muito criativas, muitas das ideias foram deles”. Nas palavras da animadora, “quando os utentes entram para a instituição existe um desenraizamento a nível social e cultural, que às vezes é difícil de travar. E o meu papel e de toda a equipa é completamente o contrário, queremos muito que eles acompanhem aquilo que acontece na comunidade e tenham uma participação social ativa. E estas iniciativas são uma hipótese de nós fazermos coisas diferentes e eles gostam”.
Antes da relação dos utentes com a comunidade vem a relação dos utentes com eles próprios, e quando falamos de idosos em situação de demência, como no projeto ‘Baú de Memórias’ da Misericórdia de Felgueiras, os impactos são mais difíceis de avaliar, mas nem por isso impossíveis: “O que provoca não faço ideia, mas que mexe com eles, mexe”, reconhece a artista plástica Joana Antunes. Ao trabalhar neste projeto só com pessoas com quadro demencial, Joana confessa: “Eles próprios mergulham nisto e bem estimulados conseguem superar expectativas”.
Quando a artista amarantina inaugurou o Bioma Atelier em Felgueiras, em fevereiro de 2025, tinha um objetivo claro para que este fosse um espaço “onde a arte se transforma em ponte entre gerações, emoções e histórias”, para desenvolver projetos artísticos com impacto social “dos seis aos 99 anos de idade”. Procurou desde a primeira hora relacionar-se com as instituições sociais da cidade e na Santa Casa local encontrou reverberação no entusiasmo da diretora técnica do Lar Nossa Senhora da Conceição, Ana Cristina Ferreira.
A responsável explica que procurava “sobretudo trabalhar com aquelas pessoas que não estão envolvidas nas atividades típicas, seja a ginástica, trabalhos manuais, aqueles que estão mais sós”. Tem sido na direção de uma abordagem mais individual e não de grupo que o lar tem investido nos últimos anos: “Primeiro pela demência, depois pela agitação, e depois porque precisam de serenidade.”
Confrontadas com um problema, juntas engendraram a solução: ao longo de seis meses, o primeiro grupo de oito idosos (o projeto já vai na segunda edição) reunia-se para através da pintura e do desenho trabalharem sobre fotografias antigas deles mesmos. Trabalham o passado “porque é daquilo que eles se lembram”, aponta Ana Cristina Ferreira, e a partir daí transformam a sua perceção sobre eles mesmos, a partir da sua expressão visual na atualidade. Com uma música calma de fundo, partilham estes momentos num ambiente de escuta, diálogo e afeto. Mais do que uma atividade artística, Joana Antunes refere-se ao projeto como “um compromisso com a dignidade, a sensibilidade e a beleza que habita em cada pessoa”.
É pela sensibilidade desta artista, em parte, que o projeto se viabiliza sem apoios financeiros e cada rosto deixa em si uma marca distinta. D. Emília, de 90 anos, que “só conheceu a dureza da vida” e mesmo tendo chegado ao projeto dizendo “que não conseguia, pouco depois levantava a cartolina para conseguir pincelar por cima da linha”. A possibilidade de proporcionar experiências diferentes numa idade tão avançada a pessoas que “nunca pegaram num lápis, muito menos num pincel, mas pegam no lápis e no pincel independentemente das dores e limitações” é um motor central.
Ana Cristina Ferreira menciona o trabalho de outro utente que ao representar-se “fez o contorno do rosto, fez tudo, e depois o rosto desapareceu. Ele encheu a tela de cores. Alguns conseguem pintar os olhos, os cabelos cinzentos, os lábios, mas este pintou tudo.”
Na hora dos trabalhos expostos, em agosto de 2025, alguns utentes não acreditavam que tinham sido eles a fazer o próprio trabalho. Até os familiares se surpreenderam, havendo depois quem quisesse “ficar com a tela para eles”, lembra a diretora, o que “cria laços e é muito positivo”. As compras revertem de volta para a aquisição de materiais para o projeto, que à partida já utiliza todo o material reciclado que consegue, graças a doações de empresas locais e não só. Apesar de o projeto continuar na base do voluntariado, Joana defende que é uma parceria “com muito sentido de acontecer”, o que se reflete por igual nas obras plásticas e nos comportamentos dos utentes envolvidos. Ana Cristina Ferreira refere o objetivo de “serem cognitivamente ocupados e emocionalmente estáveis. E temos conseguido”.
“E a cultura é isso”, reforça Frédéric: “Para além de provocar pensamento crítico, tem de haver aqui um lado do bem-estar para que a cultura também possa sobreviver, manter-se e continuar nos vários territórios. E neste caso, nas Santas Casas, claro que há um trabalho que os animadores e que os técnicos das instituições já fazem maravilhosamente bem, mas se as companhias profissionais puderem também estar ao seu lado, quem ganha somos todos nós”. A ideia é simples: criar o máximo de afluentes possíveis, para que o caudal aumente e as margens sejam parte integrante.
Festivais e Bienais também são espaços para abraçar a diferença
Um pouco por todo o país, utentes de Misericórdias são envolvidos em eventos de música e dança, entre outros, promovendo uma interação valiosa para todos
Os festivais de música são os que recebem maior destaque a nível nacional, mas nem só de música se faz o panorama festivaleiro em Portugal. Com uma grande variedade de registos, também neste universo as Misericórdias marcam presença assídua, com colaborações variadas e ativas.
Em Reguengos de Monsaraz, os limites de quatro paredes do CACI da Misericórdia não são suficientes para suster toda a vida que ali pulsa. Por isso, além da loja Capacit’arte no mercado municipal, esta resposta da Santa Casa procura estar presente com a comunidade que a rodeia e de que faz parte. Foi nesse sentido que, como conta a diretora do centro, Helena Calaco, propuseram ao festival Andanças “voluntariamente fazer um workshop de origami” no âmbito do festival, que tem lugar no concelho. “As pessoas aderiram muito bem e os nossos utentes estavam radiantes de estarem a ensinar alguma coisa que os outros desconhecem”, refere.
Com a proposta surgiu uma relação de proximidade com os responsáveis do festival, que é organizado pela associação PédeXumbo, e a pouco e pouco o festival Andanças ficou com uma marca distintiva do CACI da Misericórdia de Reguengos de Monsaraz: a decoração do espaço. Não todo, mas uma parte. O suficiente para estabelecer pontes entre festivaleiros e a Misericórdia.
Saltamos para Carvalhais, no município de São Pedro do Sul, onde o festival Tradidanças é um espaço para a tradição e para as danças respirarem de pulmões cheios, com muita música à mistura também. Desde a primeira edição, em 2017, que o festival organizado pela Associação Turística e Agrícola da Serra da Arada chamou até si as instituições locais para enriquecer o festival e a Misericórdia de São Pedro do Sul há mais de sete anos que colabora numa lógica que “já é prática corrente da instituição, de promover a partilha de atividades com outras IPSS”, como diz o diretor técnico, João Marques. Ao longo de dois meses são dinamizados encontros entre os utentes das instituições locais para a preparação dos materiais que irão decorar o festival.
Com o crescimento do Tradidanças ao longo dos anos, os convites foram alargados a instituições de concelhos vizinhos, e desde 2023 a Misericórdia de Vouzela também participa no festival sob o projeto ‘Retrançar’. Embora fique de fora destas dinâmicas de criação partilhada por causa da distância, os utentes meteram mãos à obra e “reaproveitaram excedentes de materiais” para criar peças de decoração que “de ano para ano” têm “ocupado cada vez mais espaço do festival”, conta o animador sociocultural Luís Figueiredo. Além de ter os seus próprios trabalhos no espaço, os utentes quiseram participar num workshop de “danças de roda mais tradicionais” nesta edição de 2025.
Regressamos a Reguengos de Monsaraz, para ver que essas ligações externas podem assumir os mais variados contornos. Além do festival e das idas às escolas, o CACI recentemente inseriu-se numa rota turística da empresa ‘Backroads’: ao dinamizar passeios de bicicleta todo o terreno em São Lourenço do Barrocal, “fazem um circuito onde passam por Reguengos, mas não tinham nada, iam só beber café.” Agora, quando o grupo chega ao café na praça central, os utentes já estão “nas mesas distribuídas de forma a que quando os estrangeiros chegam, ficam sentados e aprendem a fazer alguns origamis. É engraçado porque os nossos não falam inglês, mas através da comunicação não verbal, conseguem comunicar facilmente”.
A barreira linguística surge igualmente em Guimarães, onde é também ultrapassada com facilidade. Desde 2014 que a Misericórdia integra a bienal de arte têxtil contemporânea ‘Contextile’ que decorre na cidade, primeiro ao disponibilizar espaços para exposições e desde 2019 como entidade parceira, recebendo artistas de vários países que criam obras em conjunto com os utentes.
A parceria decorre ao abrigo do projeto ‘Magic Carpets', que a cada dois anos coincide com a realização da bienal, embora sejam iniciativas separadas. No entanto, ambas as ligações da Misericórdia são feitas através da sociedade cooperativa cultural ‘Ideias Emergentes’, que possibilitou a antigos “costureiros e operários que trabalharam com têxtil”, hoje utentes da Misericórdia, voltar a ter contacto com as práticas artesanais do trabalho com tecidos, como conta a diretora da Unidade Funcional de Animação Sociocultural, Cátia Bastos.
De edição para edição, os artistas “ou rodam pelas várias respostas sociais ou focam só numa” e a equipa da Misericórdia encaminha consoante “o que cada artista pretende”. Após a criação conjunta, as obras ficam expostas por um período de dois meses e com este projeto “que vai buscar as memórias da vida deles” eles têm também a possibilidade de visitar as suas próprias obras, assim como de estar presentes nas inaugurações sentindo-se como artistas de direito. Nas palavras de Maria Rui Sampaio, coordenadora, “este projeto traz a importância de cada um” através do reconhecimento público, o que considera ser muito positivo
Voz das Misericórdias, Duarte Ferreira