Aos 82 anos, Horácio Pereira cumpre o sonho de uma vida ao ver finalmente lançada a primeira pedra da futura estrutura residencial para pessoas idosas (ERPI) da Santa Casa da Misericórdia de Grândola, um equipamento com capacidade para 80 camas que representa um investimento de cerca de dez milhões de euros, totalmente suportado pela instituição.
À frente da Misericórdia há mais de quatro décadas, o provedor não esconde a emoção por ver avançar um projeto que durante anos alimentou em silêncio. “Foram milhares de horas, muitos sonhos acordados”, recordou, evocando as noites mal dormidas e as longas viagens em que imaginava a forma de tornar possível este novo espaço de acolhimento para os idosos do concelho.
“Não estamos apenas a lançar a primeira pedra de um edifício”, afirmou. “Estamos a lançar a primeira pedra de um sonho, um sonho feito de cuidado, de respeito, de memória e de amor.”
A nova estrutura ficará instalada num quarteirão adquirido pela instituição, junto às atuais instalações da Santa Casa. Para além das 80 camas, o edifício irá integrar diversos serviços de apoio, incluindo áreas médicas e de fisioterapia, permitindo melhorar as condições de acompanhamento aos utentes. Segundo o provedor, o projeto surge como resposta a uma realidade cada vez mais evidente: o envelhecimento da população. “O país está muito envelhecido e Grândola também”, sublinhou, lembrando que a Misericórdia tem atualmente acordo com a Segurança Social para 150 camas, muitas delas ocupadas por pessoas muito dependentes.
O novo equipamento permitirá reforçar essa resposta e apoiar não apenas os idosos, mas também as famílias. “O hospital luta pela vida, o lar cuida da dignidade da vivência”, afirmou, defendendo que estas estruturas desempenham um papel fundamental na sociedade ao garantir acompanhamento, proteção e proximidade numa fase particularmente sensível da vida.
Apesar da satisfação por ver o projeto avançar, o provedor lamentou a ausência de apoios públicos para a construção do equipamento. “Não existe qualquer ajuda para esta obra e ainda temos de pagar IVA, o que neste caso representa mais de um milhão de euros”, referiu.
Ainda assim, a Misericórdia decidiu avançar com o investimento, totalmente assegurado com capitais próprios. Com um prazo de construção previsto de cerca de um ano e meio, a futura estrutura pretende ser mais do que um simples edifício. “Ninguém deve envelhecer sozinho, ninguém deve sentir-se descartável”, afirmou Horácio Pereira, que teve a seu lado o presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP). Manuel de Lemos, amigo de longa data do provedor, destacou o percurso de Horácio Pereira à frente da instituição, lembrando tratar-se de “uma pessoa que sempre disse o que tinha a dizer, olhos nos olhos”, qualidades que ajudam a construir relações de confiança e amizade duradouras.
Para Manuel de Lemos, o envelhecimento da população coloca novos desafios à sociedade e torna cada vez mais necessárias respostas como os lares e o apoio domiciliário. Considerou particularmente significativo que a Misericórdia de Grândola avance com um investimento desta dimensão suportado por meios próprios, dando assim resposta a uma necessidade real da comunidade.
Entre os convidados, esteve António Estevão Bernardino, o presidente da Mesa da Assembleia Geral da Santa Casa, que sublinhou a tradição secular destas instituições, sendo que a nova ERPI dá continuidade a esse “compromisso com a dignidade humana”. Destacou ainda o trabalho de Horácio Pereira e evocou colaboradores que marcaram a história da instituição.
Voz das Misericórdias, Rosário Silva