A sala de atividades está transformada numa espécie de laboratório. Em torno da mesa, os utentes apresentam-se equipados 'à cientista', com avental, luvas e mangas de plástico para proteger a roupa e as mãos. "Desta vez, não vamos precisar de óculos", avança Rita Leitão, animadora social, enquanto distribui o material necessário para a experiência: frascos de vidro, corante alimentar e comprimidos efervescentes "fora do prazo" para evitar o desperdício.
"O que será que vai acontecer aqui?", questiona uma das utentes da estrutura residencial para pessoas idosas da Misericórdia do Louriçal, no concelho de Pombal. "Vamos fazer um candeeiro de lava", desvenda a técnica que vai colocando água em cada um dos recipientes de vidro. A psicóloga da instituição, Sara Vieira, ajuda e acrescenta óleo, questionando se a quantidade está na proporção certa. "Veremos", atira um dos utentes, que à semelhança do que fazem os companheiros de experiência, junta o corante, sob o olhar atento de Félix, o gato da instituição que se junta ao grupo e que sobe para cima da mesa, onde fica a observar a sessão.
É chegado o momento de adicionar o comprimido efervescente e esperar que "a magia aconteça". Ou seja, que a aspirina entre em ebulição dentro do frasco, formando pequenas bolhas que fazem o efeito de lava a sair do interior de vulcão. "Já se veem as bolinhas", constata Carlos Sousa, de 79 anos, que acrescenta mais um pouco de óleo e outro comprimido para ver o efeito.
Há quem sugira fazer uma nova mistura, agora com menos água e uma quantidade menor de corante. E o resultado melhorou. "Faz mais o efeito do vulcão. Dra. Rita, não se esqueça de anotar a receita para a próxima vez", recomenda o senhor Carlos, com os olhos colados ao frasco para ver a formação das bolhas.
Do outro lado da mesa, José Augusto propõe um novo desafio: aproveitar o óleo para novas experiências. E apresenta uma solução para o fazer, socorrendo-se do que aprendeu na vida ativa, quando acompanhava a produção de azeite. "A água ficava no fundo e o azeite por cima. Aqui é igual. Mudamos o óleo para outro recipiente sem deixar misturar a água", explica o utente, ao mesmo tempo que põe mãos à obra para executar a tarefa, que exige paciência, mas que resulta. "Muito bem observado. Assim, não há desperdício", elogia Rita Leitão, no final de mais uma sessão do ‘Curiosistas’, o mais recente projeto da Misericórdia do Louriçal, que pretende combater a ideia de que "burro velho não toma ensino".
A técnica explica que a iniciativa decorre no âmbito do projeto anual da instituição, subordinado ao tema ‘Envelhecer Curioso’, com o intuito de passar a mensagem de que "nunca é tarde para aprender" e que devemos manter a curiosidade ao longo da vida. Para estimular essa vertente, uma vez por semana, há atividades relacionadas com a tecnologia e a introdução ao mundo digital, ciência divertida, "com experiências de trazer por casa", brinca Rita Leitão, e ateliê de arte, através do qual os utentes são desafiados a dar largas à imaginação e à criatividade. Estão ainda previstas visitas culturais a museus e a monumentos, aproveitando as entradas gratuitas disponibilizadas pelo Ministério da Cultura.
Voz das Misericórdias, Maria Anabela Silva