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- Mora | Arte, memória e inclusão através das obras de misericórdia
O projeto nasce de uma parceria entre a Santa Casa, o CACI (Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão) de Mora e a Cercimor de Montemor-o-Novo, integrada num plano anual que, desde o final de 2024, é desenvolvido pelos utentes destas instituições. O desafio concreto surgiu em 2025, a partir de um convite para a realização de uma exposição de obras abstratas inspiradas no universo de Miró. A Santa Casa decidiu então ligar esta proposta às 14 obras de misericórdia, corporais e espirituais, dando-lhes uma nova leitura artística.
Segundo a diretora técnica Débora de Matos, este trabalho permitiu revisitar a própria missão da Misericórdia. “Estas obras retratam mesmo qual é o espírito das Misericórdias, para além de virmos trabalhar todos os dias e prestarmos só as nossas funções”, sublinha. Mais do que um exercício artístico, foi um processo acessível a todos, pensado para incluir diferentes capacidades, histórias de vida e ritmos.
Cerca de duas dezenas de utentes, do lar, residências assistidas e centro de dia participaram no projeto ao longo de vários meses. Entre elas está Perpétua Nunes, de 81 anos, que recorda a naturalidade com que o trabalho foi acontecendo: “Cada uma fez uma coisa, cortar as lãs, as pinturas, as rosetas, foi fácil. Nunca tinha feito.” A experiência despertou memórias antigas. “Desde os 11 anos que fazia renda. De dia trabalhávamos no campo e à noite eram os bordadinhos à luz do candeeiro de petróleo.” No terreno, o projeto foi vivido de forma muito concreta. Para a animadora sociocultural Raquel Rodrigues, o maior desafio foi garantir que ninguém ficava de fora. “Tentámos incluir toda a gente, desde quem conseguia aplicar a lã na tela até quem ia cortando fiozinho a fiozinho.” Os materiais foram maioritariamente reaproveitados, reforçando a ideia de que o essencial esteve no envolvimento humano e não no investimento financeiro.
À medida que cada tela era construída, as obras de misericórdia iam sendo explicadas, dando sentido à verdadeira missão destas instituições. Muitas tornaram-se, mesmo, ponto de partida para conversas e partilhas. Manuela Vicente, de 82 anos, que participou na criação de uma representação de Nossa Senhora, fala da alegria sentida: “Fazer esta obra trouxe-me alegria e gosto por a ter feito. Gostei do convívio com todas.” A atividade trouxe-lhe recordações de outros tempos. “Quando era mais nova fazia muitas rendas. Isto fez-me lembrar a minha vida.”
Também Amália Pinto, de 88 anos, aceitou o convite com curiosidade. “Nunca tinha feito isto”, confessa, recordando que apenas fazia rendas quando era mais nova. “Lembrei-me desses tempos e gostei muito. Acho que está tudo muito lindo.”
A memória surge como fio condutor em muitos testemunhos. Augusta Moita, de 91 anos, participou ativamente: “Pintei muito, como quando era nova. A minha paixão era pintar e fazer renda.” A experiência permitiu-lhe regressar a gestos antigos, agora partilhados em grupo.
Para Idalina Fernandes, de 90 anos, a participação foi quase natural. “Não gosto de estar à boa vida, por isso vim para aqui e fiz de tudo, ajudei no que era preciso.” O orgulho no resultado é evidente: “Penso que foi uma coisa muito bonita que nós fizemos, estes quadros todos. Estou sempre disponível para estes trabalhos.”
Segundo Raquel Rodrigues, houve muitos momentos de convívio e orgulho coletivo. As obras já foram apresentadas num evento recente, mas a exposição principal está prevista para agosto deste ano, integrada nas comemorações dos 50 anos da Cercimor, cruzando simbolicamente duas histórias feitas de cuidado e proximidade.
No centro de tudo, permanece a mensagem que a instituição quer deixar. “A humanização dos cuidados e a inclusão, em todas as fases da vida”, resume Débora de Matos. Não como “conceito abstrato, mas como prática concreta”, neste caso, feita de mãos que cortam lã, de memórias que regressam e de obras que, mais do que se verem, sentem-se.
Voz das Misericórdias, Rosário Silva