Este artigo de opinião do vice-provedor da Misericórdia de Monchique, Rui André, integra a edição de maio de 2026 do Voz das Misericórdias.
Fenómenos climáticos extremos como a recente tempestade Kristin, crises sanitárias, falhas de infraestruturas essenciais, ciberataques, crises reputacionais ou até acidentes graves em respostas sociais são hoje riscos reais e transversais. Com uma mudança assustadora da matriz de risco, o impacto dos incidentes é por um lado cada vez maior, mas por outro a sua probabilidade é muito baixa e não expectável. Podemos dizer que estamos mais expostos ao risco, mas com probabilidades e consequências imprevisíveis. Ou não. Pois, em particular, nas áreas onde as Misericórdias estão mais presentes como sejam os lares de idosos, saúde, infância e apoio social em termos gerais, qualquer emergência tem impacto direto gravoso sobre pessoas mais dependentes e vulneráveis que cuidamos. Neste contexto, improvisar não é, de certeza, uma boa opção.
É por isso que, à semelhança do que outras entidades têm vindo a fazer, com destaque para o próprio Governo, se torna cada vez mais pertinente a necessidade de se avançar para a criação de um manual de gestão de emergência e crise da União das Misericórdias Portuguesas, enquanto instrumento estruturante de governação responsável, cooperação solidária e de preparação coletiva e institucional.
Estabelecer um quadro normativo e operacional de referência para a prevenção, preparação, resposta, coordenação e recuperação; falar em planos, manuais ou procedimentos não significa, de forma alguma, antecipar o pior, mas sim cumprir o dever ético de estar preparado para proteger vidas, assegurar cuidados e garantir a continuidade da tão nobre missão que as Misericórdias prosseguem. Um manual não substitui a liderança próxima nem o bom senso; antes fornece referências claras que ajudam a decidir sob pressão, quando o tempo é escasso e as consequências são críticas.
Cada Misericórdia conhece melhor do que ninguém a sua realidade, os seus edifícios, os seus utentes, as suas equipas e os riscos do seu território. É essencial que cada instituição organize a sua própria resposta, adaptada às suas especificidades. Mas essa resposta local torna-se mais forte quando assenta num referencial comum, partilhado por todas, com princípios, conceitos e níveis de atuação alinhados.
As Misericórdias não atuam isoladamente. Estão integradas em comunidades, em redes locais e regionais, e num sistema nacional de proteção e socorro. Em situações de emergência, a articulação com os serviços municipais, com as estruturas distritais e nacionais da Proteção Civil, com as autoridades de saúde e com outras entidades públicas é determinante.
Um manual de gestão de emergência e crise deve, por isso, clarificar não só o que fazer “dentro de portas”, mas também como comunicar, quando informar e como articular com estas estruturas. Uma linguagem comum, expectativas claras e canais definidos evitam atrasos, duplicações e ruído num momento em que todos precisam de agir como um sistema e não como ilhas.
Ao mesmo tempo, uma articulação nacional entre Misericórdias, promovida pela União, permite partilha de informação, apoio técnico, reforço de recursos e uma voz institucional única quando necessário. A solidariedade inter Misericórdias, que sempre fez parte da nossa identidade, ganha aqui uma dimensão prática e organizada.
O manual não deve ser visto como um documento distante ou meramente formal. Deve ser um instrumento vivo, complementado por guias práticos, checklists e anexos adaptados às várias respostas sociais, testado em simulacros, integrado na formação de dirigentes e técnicos, e revisto à luz das lições aprendidas.
Ao investir nesta preparação, as Misericórdias reforçam a sua credibilidade institucional, protegem os seus utentes e colaboradores, reduzem riscos legais e reputacionais e, acima de tudo, garantem que, mesmo nos momentos mais difíceis, conseguem continuar a cuidar, como têm dado provas tão evidentes sempre que tal se tem revelado necessário.
Avançar para a criação de um manual de gestão de emergência e crise não é apenas uma boa prática moderna; é uma expressão concreta do compromisso histórico das Misericórdias com a responsabilidade, a solidariedade e a dignidade humana. Preparar-se hoje é uma forma de cuidar melhor amanhã.