Sofia Valério é a diretora-coordenadora da Misericórdia de Almada, num percurso marcado por causas sociais

Sofia Valério, nascida em 1975, tem um percurso marcado pela diversidade de experiências e visões do mundo, sem perder o foco na causa social. Em permanente reinvenção, a diretora-coordenadora da Misericórdia de Almada desdobra-se em projetos e parcerias inovadoras, em busca de novos horizontes e formas de superar os desafios que encontra no caminho.

De origem luso-moçambicana, Sofia cresceu numa família com ligações à diplomacia, cooperação e desenvolvimento. “O meu pai é moçambicano e a minha mãe, portuguesa, nasceu em Moçambique, estudou nos Estados Unidos e andou sempre fora a ver o mundo. É nestes privilégios que recolho contributos para o que vou desenvolvendo”, revela.

Nas pontes aéreas, testemunhou um período de transformação profunda na República Popular de Moçambique, após a independência. Hoje reconhece a “riqueza desta convivência com gente do mundo inteiro”.

Formada em psicologia, iniciou a sua atividade profissional com um estágio no Hospital de Santa Maria, focado na intervenção clínica com crianças. A intervenção comunitária surgiu por acaso e representou uma mudança profunda na sua vida. “Foi um banho de humildade porque me fez sair do hospital e ir diretamente ao encontro das pessoas”.

No Centro Comunitário do Laranjeiro e Feijó contactou, pela primeira vez, “com figuras que não conhecia em termos de intervenção, como o assistente social e o animador, e com o papel da psicologia na mobilização das pessoas para o cumprimento dos planos de inserção”.

A sua ligação às Misericórdias remonta a 2003, com uma experiência no centro de acolhimento temporário de Oeiras, integrando em 2004 a equipa de Almada como psicóloga no Centro Social da Trafaria.

Em 2009, assumiu a coordenação do serviço de psicologia da instituição, o que exigiu “uma intervenção concertada e grande diplomacia” na relação com todas as respostas sociais. Neste período, a psicologia afirmou-se como área de intervenção nos lares e centros de dia, através da estimulação cognitiva e formação de cuidadores. “Começámos a escutar pessoas que eram muito desafiadas no seu trabalho e a desenvolver programas de promoção de bem-estar”.

Em 2014, regressou ao Centro Social da Trafaria como diretora técnica e ajudou a transformá-lo num “polo de experimentação e parcerias”, implementando projetos como o ‘Parque de Reminiscências’, reconhecido pela Fundação Calouste Gulbenkian, na área das demências.

Depois de uma experiência enriquecedora neste “espaço mágico, mas rodeado de pobreza”, Sofia assumiu funções como diretora- -coordenadora, em 2021, o que lhe permitiu “olhar para a casa com uma visão de conjunto e aplicar os recursos de forma sustentável na resolução de problemas”. Mais uma vez, a diplomacia entra em ação para articular necessidades e decisões políticas, numa “liderança partilhada”, que faz a ponte entre a Mesa Administrativa e as direções técnicas.

Ao longo deste trajeto, a Misericórdia de Almada serviu de “casa- -laboratório” para testar práticas e modelos de intervenção, para se reinventar como pessoa e profissional. “A história da nossa vida é feita de recomeços”.

Voz das Misericórdias, Ana Cargaleiro de Freitas