Isabel Miguens foi a primeira diretora-geral nas Misericórdias e hoje é provedora da Misericórdia de Cascais

“Não há dia em que a Dra. Isabel não diga, já pensaram nisto, já viram isto e que não entre pela porta e não nos lance desafios, a nós, ao município, aos ministérios.” A apresentação de Isabel Miguens, provedora da Misericórdia de Cascais e ex-membro do Secretariado Nacional da UMP, surge pela boca de Miguel Sousa Major, da Mesa Administrativa.

Nascida em Cabrela, Montemor- -o-Novo, trabalhou em Évora (Instituto de Assistência Psiquiátrica), viveu na Guiné-Bissau, durante a guerra colonial, ao lado do marido, militar. Apesar de habilitada a “dar aulas de inglês”, prestou apoio social no Hospital de Bissau “às famílias dos doentes e feridos”, recordou.

Regressou a Portugal “nos primeiros dias de maio” de 1974. Escolheu Cascais para viver. “Não conhecíamos uma pessoa, viemos sem rede”, relembrou. “Hoje, o Dr. Mota Soares (Mesa Administrativa) diz que não pode descer a rua Direita comigo porque demoramos meia hora a chegar à câmara”, sorriu.

Tinha trabalho na CUF. “Sabia lá o que ia acontecer. Com o 25 de Abril, deixei de ter essa porta”, reviveu. Deixou um “papel” no hospital (da Misericórdia de Cascais), que seria nacionalizado. O curriculum voltou a esbarrar na porta das nacionalizações, mas “a 1 de fevereiro de 1975” entraria na Santa Casa. “Primeira pessoa admitida no pós-25 de Abril”. Técnica (1975) e diretora-geral (1982), Isabel Miguens, atual provedora, lamenta ter perdido o cartão de “número um”.

Regressa aos primeiros dias do resto dos 50 anos seguintes. À farmácia, a Misericórdia adiciona “uma creche junto à igreja”, aberta a “todas as crianças”. Funcionou como “motor do desenvolvimento” e o sucesso atraiu pedidos. “De repente, ficámos com um parque de infantários”, exclamou orgulhosa.

No orgulho cabe terem criado “a primeira instituição em Portugal a admitir crianças com deficiência”, o primeiro centro de convívio “para pessoas de idade”, a “Fundação para a Toxicodependência” e ter desafiado o provedor a fazer um take away. O Centro de Apoio Social do Pisão, herdado da Segurança Social, em 1985, é a grande obra, reconheceu.

Segue um modelo. “Tudo tem de funcionar como se fosse para nós. A creche para os meus filhos, o lar para mim e o Pisão também”, rematou. Não convive bem “em saber que há não sei quantas crianças em pobreza extrema. Amanhã, podem assaltar-me na rua ou tratar-me no hospital e posso contribuir para uma coisa ou outra”, deixou escapar.

Da obra feita, recorda um episódio. “Uma empresa de eletricidade queria pôr painéis solares numa creche e que 10 famílias (bairro social em Bicesse) nada pagassem. Preferi ter 20 a pagar metade. Eles percebem de energia, de comunidades percebo eu”, sublinhou.

No balanço, diz ter trazido para a Misericórdia “muito bons técnicos, boa gente, bons gestores, boas cabeças”. A completar 81 anos, ainda se sente, “às vezes”, aquela menina que entrou pela primeira vez na Misericórdia. “Ainda tenho energia e ousadia. Não tenho é a mesma resistência”, admitiu.

“A Dra. Isabel fará sempre parte desta casa e de Cascais. É genuinamente livre. Em instituições como esta, é imprescindível ter esse perfil”, finalizou Miguel Sousa Major.

Voz das Misericórdias, Miguel Morgado