Até 15 de novembro de 2025, em Portugal, foram assassinadas 24 mulheres. Os dados do Observatório das Mulheres Assassinadas (OMA/UMAR) revelam que destas mortes, 21 são femicídios, ou seja, mortes que resultam de violência de género. Foram ainda registadas 50 tentativas de assassinato, das quais 40 tentativas de femicídio. Há crianças que assistiram aos crimes e dezenas que ficaram órfãs. Em vários casos, já havia denúncias às autoridades. No total, 57% dos femicídios tinham violência prévia conhecida. Os números são assustadores. A realidade vivida por centenas de mulheres é aterradora. A violência doméstica não escolhe estatutos culturais ou sociais. É transversal.
Por isso, com o objetivo de consciencializar a população deste crime, a Organização das Nações Unidas instituiu o dia 25 de novembro como Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. A efeméride alerta para a necessidade de prevenir, proteger e punir os crimes contra mulheres e raparigas, com atividades de ativismo, marchas e campanhas de denúncia.
Um pouco por todo o país, saem para as ruas campanhas que alertam para a problemática e a Santa Casa da Misericórdia de Santo Tirso também abraçou esta causa. Para além de uma casa abrigo que, desde 2004, acolhe em regime temporário mulheres - acompanhadas ou não dos seus filhos menores - que tenham sido vítimas de violência doméstica e que, de livre e espontânea vontade, pretendam ultrapassar os problemas vivenciados, a Santa Casa levou para a rua uma campanha contra a violência de género.
Assente em cartazes, autocolantes e vinis, a campanha ‘25N – Santo Tirso contra a Viole^ncia de Ge´nero’ envolveu autoridades de segurança e judiciais, bombeiros, comércio, entidades desportivas e associativas através da partilha de informação relevante sobre este flagelo.
Sofia Moita, psicóloga e coordenadora da casa abrigo, sente que a comunidade e as instituições tirsenses estão unidas numa só voz contra a violência doméstica e de género. “A campanha correu de forma muito positiva, inicialmente tivemos algum receio de resistência, por parte dos comerciantes, para colocação de vinis nas montras, mas o resultado foi o contrário. Colocámos cerca de 170 vinis no comércio e cerca de 35 vinis em entidades como PSP, GNR e hospital”, além dos próprios espaços da Misericórdia.
No Futebol Clube Tirsense, o negro dos equipamentos também assumiu relevância contra a violência; nos bombeiros, as ambulâncias circulam com mensagens. “Apercebemo-nos que em algumas lojas, alguns lojistas mantiveram os vinis durante o ano inteiro, o que acabou por ser uma surpresa e também algo muito agradável no cumprimento do objetivo. A mensagem passou. É uma questão que não se cinge ao 25 de novembro”, explica com satisfação a coordenadora.
Para Sofia Moita, “a violência doméstica é crime e é um crime público”. Por isso, reforça que, “se conhece alguém que pode estar a ser vítima de violência doméstica, ou se é vítima de violência doméstica, procure ajuda e denuncie”. Há números telefónicos que dão esta informação, como o número 800 202 148, bem como linhas específicas na PSP e GNR. “Todos temos responsabilidade em prevenir, em apoiar e proteger as vítimas e alertar para estas ocorrências”, sustenta.
Em 2025, a Misericórdia de Santo Tirso apoiou 150 pessoas vítimas de violência doméstica, das quais 71 mulheres e 79 crianças. Uma dessas mulheres, de 41 anos, conversou com o VM. Ana (nome fictício) acredita que campanhas como a ‘25N – Santo Tirso’ ajudam quem está, em silêncio, a sofrer abusos. “A pessoa, a vítima, vê que é real e pode sentir-se abraçada, sabe que pode pedir ajuda. Muitas pessoas não sabem que existe uma esquadra da polícia com agentes especializados em violência doméstica ou estruturas de atendimento.”
Depois de um período marcado por abusos e pela ideia de que “sozinha ia conseguir contornar a situação”, Ana foi aos poucos percebendo que não havia saída possível. “Quando eu engravidei, a situação agravou-se: tinha ciúmes das minhas roupas, tinha surtos com as pessoas com quem eu conversava, tinha ciúmes das pessoas que falavam comigo, de amigas, de mulheres, de homens… foi ficando cada vez mais abusivo e violento.” Além disso, controlava tudo, “todas as minhas rotinas”.
Foi então que decidiu procurar ajuda através de um gabinete de atendimento às vítimas, que reencaminhou Ana e a filha para uma casa abrigo. “Nós chegamos muito necessitadas de sentir as pessoas e tudo faz diferença, um gesto faz diferença. E até hoje não há forma de não ter ligação com a equipa da casa que nos recebeu, apoiou e ajudou.”
Quebrar o ciclo de violência não é fácil, assume Ana. Mas é possível. Em primeiro lugar, é necessário que se queira receber ajuda e daí a importância de campanhas de consciencialização. Procurar uma saída “é um ato de muita coragem”, mas vale a pena. “Tenham coragem, procurem ajuda, é possível recomeçar, com toda a certeza, sem violência. A paz não tem preço”, remata Ana.
Para Sofia Moita, as campanhas são importantes para as pessoas que sofrem com a violência de género, mas também para sensibilizar a comunidade em geral, em especial as entidades envolvidas no acompanhamento das vítimas.
Com uma experiência de mais de 20 anos, a coordenadora da casa abrigo acredita que “as instituições estão com mais capacidade de resposta pela formação especializada que os profissionais e as restantes entidades vão tendo”. “Ao longo destes anos, fizemos um caminho muito válido”, acrescenta Sofia Moita, lembrando que espaços como a casa abrigo devem ser a última linha de resposta.
Voz das Misericórdias, Vera Campos