Cinco séculos depois da sua fundação, a Misericórdia de Sines continua a ser, para muitos, “a nossa Misericórdia”. Ao assinalar 510 anos de existência, a instituição reuniu a comunidade para celebrar um percurso longo, feito de serviço silencioso, mas também para refletir sobre os desafios que hoje colocam à prova o princípio da solidariedade que está na sua origem.
A sessão solene marcou o início de um ciclo de comemorações a decorrer ao longo de 2026, mas ficou sobretudo marcada por uma intervenção firme do provedor Eduardo Bandeira, que centrou o discurso no presente e no futuro da instituição, deixando críticas ao atual modelo de financiamento das respostas sociais.
“Viver e trabalhar com dificuldades é o normal”, reconheceu Eduardo Bandeira, apontando como principal desafio a falta de apoio ao investimento. A instituição tem projetos para requalificação de espaços, modernização de equipamentos e reforço de meios humanos, mas aguarda financiamento público que permita concretizá-los. “São obras de manifesto interesse público”, defendeu, sublinhando que o Estado deve assumir-se como “financiador de referência”.
A crítica tornou-se particularmente incisiva ao abordar as alterações introduzidas no Compromisso para a Cooperação para 2025-2026. O novo modelo de comparticipação das estruturas residenciais passou a fixar um valor por utente, independentemente da sua capacidade financeira. Segundo o provedor, esta mudança compromete o princípio de solidariedade interna que permitia acolher idosos muito carenciados, equilibrando os custos com utentes que podiam pagar acima do valor real do serviço. “Acabou a solidariedade para com os idosos carenciados que precisam de um lugar para os acolher”, afirmou, acrescentando: “Não nos conformamos com esta situação.”
A reflexão sobre os 510 anos foi também enquadrada numa perspetiva mais ampla pelo vice- -presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), Carlos Andrade, que sublinhou que a longevidade destas instituições assenta não apenas num quadro de valores intemporais, mas também na capacidade de adaptação aos tempos.
Carlos Andrade apontou ainda o papel das “pessoas boas das terras” na direção das instituições e o forte sentido de pertença comunitária como fatores decisivos para a sua sobrevivência ao longo dos séculos. “Mesmo quem não tem ligação direta diz sempre ‘a nossa Misericórdia’”, observou, sublinhando que é essa identificação da comunidade que permite atravessar crises e adversidades.
Por outro lado, o bispo de Beja, D. Fernando Paiva, convidou a instituição a “voltar aos fundamentos” que estiveram na sua origem. Recordando que as Misericórdias nascem do amor ao Evangelho e da prática organizada das obras de misericórdia, corporais e espirituais, destacou a importância de olhar a pessoa humana na sua globalidade. Deixou ainda uma palavra de incentivo para que a Santa Casa continue a sua missão “com alegria, simplicidade e serviço”, afastada de “toda a lógica de poder”.
Recorde-se que a Santa Casa da Misericórdia de Sines apoia diariamente quase 500 pessoas.
Voz das Misericórdias, Rosário Silva