Esta peça integra o destaque da edição de junho do Voz das Misericórdias sobre arquivos. Leia aqui a peça principal e os outros artigos sobre os arquivos das Misericórdias de Arcos de Valdevez, Melgaço e Ponte da Barca.
A importância dada aos arquivos no final do século XX e primeira década do XXI é um género de tendência da nova geração (preparada e com mais meios), quando comparada com as incursões feitas por investigadores de outrora, como foi o caso do antiquário e paleógrafo Miguel Roque dos Reis Lemos que, nas décadas de 1880 e 1890, fez no arquivo da Misericórdia de Ponte de Lima uma parcial reorganização da coleção dos testamentos e extraiu daí bastante informação para os seus estudos sobre a história local.
“No terceiro quartel do século XX, José Rosa de Araújo, saudoso diretor e reorganizador do Arquivo Municipal de Ponte de Lima, foi um conhecedor bastante profundo do acervo documental da Misericórdia, do qual colheu muitos e ricos apontamentos, apesar de não ter chegado a destilá-los em nenhuma obra publicada”, conta-nos Miguel Ayres Tovar, responsável pela descrição do Arquivo da Misericórdia de Ponte de Lima.
Reconhece o “trabalho prévio, importantíssimo” feito pela professora Marta Lobo e pela monografia institucional elaborada por António Matos Reis (1997), mas admite que a catalogação e uma descrição sistemática do arquivo – a ser disponibilizada online – poderá coroar toda a riqueza histórica dos documentos, tornando-os acessíveis aos historiadores de todo o mundo.
No caso de Ponte de Lima, não havia arquivos esquecidos em salas do consistório, mas os espaços não eram os ideais. A partir de 2024, deu-se o salto definitivo para a conservação e digitalização.
“O arquivo está armazenado numa sala própria, dotada de estantes metálicas, conforme o recomendável; as suas condições ambientais, não sendo ideais, são suficientes para assegurar a preservação da documentação.” Além disso, admite Ayres Tovar, constata-se que a maioria dos documentos chegou aos nossos dias em razoável ou bom estado.
No arquivo da Misericórdia limarense há pérolas, mas há também continuidade, como se fosse a base de dados de um motor de busca sem cortes de conhecimento, como se dizia dos chatbots até há bem pouco tempo. Com a vantagem de que aqui há uma database com mais de 300 anos. “Temos grandes séries cronológicas, de modo geral completas ou praticamente completas entre o segundo quartel do século XVII e o século XX”, refere.
“O arquivo da Misericórdia de Ponte de Lima é uma fonte de conhecimentos valiosos sobre os horizontes globais impressos a toda esta região pela diáspora minhota a partir do século XVI. Neste contexto de expansão, a instituição constituiu-se, no meio provincial do Alto Minho, como uma desenvolta placa giratória entre diversos espaços do mundo português, assegurando o contacto das suas gentes e famílias, ou o trânsito dos seus capitais; foi ainda através destes canais de correspondência assídua e segura que muitos naturais de Ponte de Lima e da região, vivendo e morrendo além-mar, formalizaram os seus testamentos e legados, assegurando uma aplicação duradoura dos seus proventos no torrão natal”, explica Ayres Tovar.
Primeiro a Índia, depois o ciclo do ouro, em finais do século XVII, com a colonização portuguesa do Brasil. Os brasileiros de torna- -viagem, naturais do vale do Lima, foram, até ao primeiro quarto do século XX, dos “mais generosos beneméritos” da Misericórdia limarense.
Na calha de publicações está, além da publicação das atas do congresso de dezembro de 2024, a publicação de uma edição crítica do Livro das Cartas da Índia. “Trata-se de uma compilação de correspondência trocada entre a Misericórdia de Ponte de Lima e as suas congéneres do Oriente - apesar de estarem incluídas uma ou outra do Brasil - entre os séculos XVI e XVII, sobretudo sobre questões de testamentos, cumprimentos de vontades e legados e outros assuntos administrativos. Muitas das cartas, no entanto, acabam por versar sobre os mais variados assuntos relevantes para a história da presença portuguesa nestas paragens, o que faz com que a importância deste volume transcenda largamente a escala regional tipicamente associada aos arquivos das Misericórdias de província”, avança Miguel Tovar.
O FUTURO ONLINE
Mediante protocolo com o município de Ponte de Lima, a Misericórdia está a proceder à descrição dos documentos e a enviar as remessas para o arquivo municipal, onde são digitalizadas e novamente remetidas à instituição.
“O protocolo pressupõe a integral disponibilização das descrições e digitalizações produzidas na plataforma online do Arquivo Municipal, em regime de acesso aberto. Os documentos físicos regressarão à instituição. Trata-se, afinal de contas, da memória histórica desta casa, e de uma memória que se continua a construir todos os dias segundo as mesmas linhas de identidade e segundo a mesma missão”.
Voz das Misericórdias, João Martinho