Esta peça integra o destaque da edição de junho do Voz das Misericórdias sobre arquivos. Leia aqui a peça principal e os outros artigos sobre os arquivos das Misericórdias de Arcos de Valdevez, Melgaço e Ponte de Lima.
A reorganização do arquivo da Misericórdia de Ponte da Barca aconteceu na última década do século XX, com trabalho mais sistemático e contínuo nos últimos anos, com as Mesas Administrativas a atribuírem uma importância crescente à valorização do fundo documental e do património da instituição.
Carla Barbosa, responsável pelo Gabinete do Património, Cultura e Comunicação da Misericórdia barquense, indica que a instituição guarda “o mais importante e volumoso acervo, contando com mais de 200 registos documentais”. Com esta importância em mãos, a Misericórdia de Ponte da Barca encetou “um trabalho sério”, que começou com o resgate de documentos de salas esconsas e húmidas.
“O arquivo encontrava-se em condições bastante precárias. A documentação estava desorganizada e sem critérios definidos de arrumação. Importa ainda referir que o arquivo resultou, em parte, da integração do espólio de outra instituição do concelho, o Asilo Condes da Folgosa, o que contribuiu para a sua dispersão e complexidade”, conta.
Por esta altura, entrou em cena a União das Misericórdias Portuguesas, “que apoiou a inventariação e catalogação do fundo documental e do património móvel, incluindo a identificação e registo de inúmeras peças que se encontravam dispersas. Paralelamente, foi realizada a higienização, inventariação e acondicionamento do acervo”, recorda ainda Carla Barbosa. Embora parte deste arquivo já tenha sido objeto de catalogação e intervenção preservativa, subsistem materiais que ainda carecem de tratamento.
“O arquivo já catalogado será alvo de ações progressivas de restauração e preservação, sendo nossa preferência que o acervo permaneça em espaço próprio da Misericórdia. No que diz respeito à divulgação, temos um protocolo assinado com o município de Ponte da Barca, que prevê a colaboração dos serviços do arquivo e permitirá avaliar a possibilidade de digitalizar alguns dos documentos mais relevantes”, avança. Se por um lado a abertura do arquivo a investigadores e historiadores tem permitido “ampliar o conhecimento sobre a atuação da Santa Casa ao longo dos séculos”, é a participação popular que tem originado iniciativas diferentes, desde cortejos das oferendas e arraiais, “momentos centrais de angariação de fundos ao longo do século passado”, à publicação de livros para o público infantojuvenil.
“No âmbito das comemorações dos 270 anos da fundação do hospital da Misericórdia, organizámos uma exposição baseada nos livros de registo. Entre cerca de 9000 registos, referentes ao período de 1890 a 1950, foram identificadas quase 250 diferentes "moléstias", o que contribuiu para uma exposição dedicada ao ciclo da memória do hospital enquanto fator de identidade da comunidade local, num percurso dinâmico e vivencial pelos objetos e espaços históricos.
Há ainda exposições temáticas, publicações, recriações históricas e parcerias estratégicas com escolas e instituições locais. A tradicional Missa da Senhora da Misericórdia e o Arraial da Misericórdia, que recria fielmente o ambiente dos anos 50 junto ao Lar Condes da Folgosa.
COMPROMISSO PERDIDO
A história da Misericórdia de Ponte da Barca começaria oficialmente por volta de 1534, se o Compromisso original “ou versões posteriores” fossem encontrados. A investigação continua a fazer-se, mas sem resultados conclusivos.
“Não existem registos confirmados de incêndios ou outras catástrofes que justifiquem a perda desses documentos, pelo que esta lacuna permanece sem explicação definitiva”, nota a responsável do gabinete que cuida o património.
Assim, a história da instituição mantém um “possivelmente” – o de 1534, que insere a Misericórdia barquense no movimento de criação das Misericórdias portuguesas iniciado pela Rainha D. Leonor.
“Durante muito tempo, o documento mais antigo referenciado foi uma procuração de 7 de janeiro de 1584. Mais recentemente, um estudo revelou documentos que comprovam a existência da Misericórdia já em 1560. Esta descoberta é particularmente relevante, pois altera a cronologia anteriormente estabelecida por diversos especialistas”, sugere Carla Barbosa.
Voz das Misericórdias, João Martinho