Arquivos | Exceção para proteger edições raras
Equipa do arquivo histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa restaurou o Compromisso da Confraria da Misericórdia de Viseu, impresso em 1516
Um exemplar do Compromisso da Confraria da Misericórdia de Viseu, impresso em 1516, foi restaurado pelo Gabinete de Conservação e Restauro da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), no final de 2024. Este é um dos dez exemplares de que há registo em Portugal, que se junta aos de Lisboa, Abrantes, Chaves, Braga, Beja, Evoramonte, Montemor-o-Novo, Cabeço de Vide, além da edição disponível na Universidade de Harvard (EUA).
O Compromisso de Viseu chegou a Lisboa pelas mãos de Henrique Almeida, diretor do Departamento Cultural-Museu da Misericórdia de Viseu. Embora já tivesse sido alvo de um “restauro muito antigo”, o exemplar encontrava-se “com a lombada solta, com acidez no suporte, com rasgos, marcas de humidade e de manuseamento”.
A título excecional, a equipa da SCML abriu as portas para restaurar esta “edição muito rara e com especial significado para a história e cultura portuguesa, que desempenhou um papel fundamental na criação de novas confrarias, orientando-as na promoção das 14 obras de misericórdia”, justificou o diretor do arquivo histórico. Ao VM, Francisco d’Orey adiantou ainda que por terem “um arquivo grande, que também precisa de restauro, não é possível trabalhar para fora, mas abrimos exceções para garantir que estes exemplares raríssimos estão a salvo”.
Não é a primeira vez que o Gabinete de Conservação e Restauro da SCML intervém no restauro destes documentos “estruturantes para as Misericórdias”. Em 2021, após uma descoberta da Santa Casa de Melgaço, dois Compromissos foram intervencionados, um de 1516 e outro de 1609.
A avaliação do estado de conservação do documento foi a primeira etapa de um processo rigoroso levado a cabo por duas técnicas da SCML, Carolina Capucho e Joana Leite. Sobre o restauro desenvolvido, a técnica Carolina Capucho ressalvou que “a intervenção de documentos gráficos, por mais simples que pareça, é um trabalho técnico e especializado”. Ao longo do processo, a equipa rege-se pelo “princípio da intervenção mínima e reversibilidade dos materiais porque aquela que nos pode parecer a melhor opção agora, pode não ser a ideal daqui a 50 anos”, justificou Francisco d’ Orey.
Todos estes procedimentos ficam registados num relatório, que é entregue à instituição responsável pela manutenção do documento, onde constam também os cuidados a ter para aumentar a longevidade do volume. “Um dia vai desaparecer, mas queremos que isso aconteça o mais devagar possível”, justificou o responsável do arquivo histórico da SCML.
Na sua longa existência, este volume passou por muitas mãos e sofreu um grande desgaste, o que desde logo é revelador da sua importância para o funcionamento da irmandade: “O uso era de tal forma intenso que poucos chegaram até hoje. E por isso temos a obrigação de os recuperar”.
Para Francisco d’Orey, outro aspeto que valoriza o documento é a sua modernidade, que se reflete na representatividade da sociedade, incluindo “seis nobres e seis mecânicos na mesa, desde as classes mais instruídas aos carpinteiros e sapateiros”, assim como o “programa baseado nas 14 obras de misericórdia, que dura há 500 anos e continua atual”.
Concluído o restauro, o documento já regressou ao arquivo histórico [de Viseu], onde está resguardado de luz e poeiras, afirmou Henrique Almeida.
Voz das Misericórdias, Ana Cargaleiro de Freitas