Em Arcos de Valdevez, a Misericórdia tem desenvolvido esforços para catalogar e preservar de forma adequada um acervo arquivístico que, ao longo dos séculos, esteve diversas vezes em risco

Esta peça integra o destaque da edição de junho do Voz das Misericórdias sobre arquivos. Leia aqui a peça principal e os outros artigos sobre os arquivos das Misericórdias de Melgaço, Ponte da Barca e Ponte de Lima.

A Misericórdia de Arcos de Valdevez despertou para a missão de preservação do seu espólio em muitos momentos da sua história. Quem afirma é Liliana Neves, a responsável a quem cabe uma nova incursão e resgate dos documentos. Terá sido no século XX, ao mover os arquivos, “que mais se fez perigar este acervo documental”, reconhece.

“Diversas obras e a transferência de funções do núcleo primitivo da Misericórdia para o novo hospital de S. José acabou por levar a algum descuido e desorganização dos documentos”, começa por contar a investigadora. Em contraponto, foi também em finais do século XX que ressurgiu um firme interesse, pelas figuras locais e organismos regionais em torno dos arquivos.

Já em meados da primeira década de 2000, fez-se nova incursão ao arquivo, desta vez com abordagem profissional, e a análise a alguns dos documentos e até ao espaço. Reconhecem-se “deficiências” nas instalações.

Por volta de 2006, continua Liliana Neves, os “documentos que à época se encontravam no hospital de S. José foram novamente transferidos para a Casa do Consistório, primitivo espaço destinado ao cartório da irmandade”. Uma mudança que causou algum retrocesso no caminho de preservação dos arquivos. “O espaço apresentava algumas deficiências que não garantiam as condições de temperatura e humidade adequadas à boa conservação dos documentos.”

“Atendendo à necessidade de armazenar de forma adequada a biblioteca e o arquivo histórico da Santa Casa, a atual provedoria, liderada por Francisco Rodrigues de Araújo, decidiu criar um espaço que dispusesse das condições necessárias ao bom tratamento deste acervo, tornando-o acessível ao público de uma forma mais rápida e cómoda.”

Em 2024, a Misericórdia arcuense deu o passo que faltava no acondicionamento, catalogação e espaço que se crê agora ser definitivo. Liliana Neves chegou no mesmo período desta mudança e vinha já com conhecimentos da realidade e histórias dos arquivos das Misericórdias.

A propósito da sua tese de doutoramento sobre o apoio aos caminhantes prestado pelas Misericórdias já tinha ‘mergulhado’ em documentos das Misericórdias minhotas. Agora, assume a função de organizar algum do trabalho iniciado por outros investigadores e pôr os ‘pontos nos is’ aos documentos soltos.

O que tinha pela frente era um rol de livros e documentos que estavam depositados em armários de madeira, alguns deles recentes, outros já antigos. “Não apresentavam condições de monitorização de temperatura e humidade do espaço. Além disso, os livros careciam de limpeza e alguns encontravam-se afetados por insetos bibliófagos”, notou.

No início de 2025, foi feito um tratamento de controlo de pragas, para aniquilar qualquer inseto bibliófago, através de um sistema de atmosfera modificada (anoxia). Em meados de abril, o acervo foi transferido para o novo espaço, já com condições ideais de conservação e consulta.

 

O QUE GUARDA O NOVO ARQUIVO?

O acervo agora acautelado guarda “cerca de 630 livros”, onde constam 125 exemplares de Livro Antigo, composto maioritariamente por publicações do século XVIII, relacionados com direito, teologia, história, medicina ou farmácia.

“O livro mais antigo corresponde a uma compilação das Ordenações e Leis do Reino de Portugal recompiladas por mandado do Rei D. Philippe, que se julga datar do ano de 1603”.

Da vida da Misericórdia, destaque para os “Fundos da Santa Casa da Misericórdia, onde encontramos documentação relativa à sua vida administrativa, compondo-se de documentação produzida desde 1495 até à atualidade”, inventaria ainda a investigadora.

Em meados dos anos 90, a propósito dos 400 anos da Misericórdia de Arcos de Valdevez, o padre José Borlido Carvalho Arieiro verteu em livro o essencial da história da instituição. A monografia, contando já com mais de 30 anos da sua publicação, “deixa espaço para que trabalhos de maior aprofundamento se possam desenvolver sobre a história da Santa Casa. É precisamente com esse intuito que pretendemos abrir o arquivo da Santa Casa ao público, procurando incentivar e fomentar os mais diversos estudos que possam vir a ser realizados com base neste acervo”, diz Liliana Neves.

Voz das Misericórdias, João Martinho