Misericórdia de Tentúgal acolheu uma das edições mais participadas do Dia do Património, com mais de 160 pessoas, de 50 Misericórdias

A recém-requalificada igreja da Misericórdia de Tentúgal acolheu o 15.º Dia do Património das Misericórdias, uma das edições mais participadas até ao momento, com mais de 160 pessoas, de 50 Misericórdias, entre dirigentes e técnicos da área, decisores políticos e académicos. Em debate, ao longo do dia 25 de setembro, esteve a preservação do património histórico e o seu papel na afirmação da identidade local e dinamização dos territórios.

Na sessão de abertura, a provedora da Santa Casa anfitriã, Maria de Lourdes Santiago, reconheceu a importância de acolher este encontro nacional no edifício quinhentista, reaberto em 2025 após obras de requalificação, realizadas com o apoio do Fundo Rainha Dona Leonor, município de Montemor-o- -Velho, junta de freguesia e beneméritos. "Sem estas ajudas, hoje não tínhamos a possibilidade de admirar estas obras de arte. É uma honra para nós e partilho com todos os presentes”, congratulou-se diante de irmãos, amigos e convidados, reafirmando o “compromisso de cuidar de um legado que guarda a memória e identidade da comunidade”.

A responsabilidade de transmitir este legado às gerações vindouras foi outra das ideias enfatizadas pelo presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), Manuel de Lemos, que, nos últimos 20 anos, definiu como prioridade a “salvaguarda do património enquanto defesa da nossa identidade, com potencial económico para os territórios”, contabilizando intervenções em cerca de 150 igrejas das Misericórdias, o que “é notável porque, tirando fundos comunitários numa fase inicial, não tivemos mais programas desse género”. Neste empreendimento, destacou o contributo decisivo de pessoas como Mariano Cabaço, Bernardo Reis, José Silveira e Nuno Reis, “defensores incansáveis desta causa”, e do Fundo Rainha Dona Leonor (FRDL), que desde 2015, apoiou 185 projetos, dos quais 73 na área do património.

Por sua vez, o presidente da CCDR Centro, José Ribau Esteves, comprometeu-se a executar o protocolo assinado com a UMP, em dezembro de 2025, “definindo obras prioritárias na região em função dos recursos disponíveis”, enquanto a vereadora do município de Montemor-o-Velho, Ana Ribeiro, advertiu que “um património que não é conhecido pode tornar-se invisível”, sendo necessário “garantir que ele continua a ser conhecido, valorizado e vivido”.

Na mesma sessão, o bispo de Coimbra, Virgílio Antunes, apontou o património imaterial como um “mar imenso de aspetos definidores da nossa identidade”, que deve ser capaz de se afirmar de “forma aberta, sem excluir os outros, do ponto de vista ético, racial ou religioso”.

Durante a jornada de trabalho, os oradores abordaram a evolução histórica do património das Misericórdias, na sua relação com as comunidades, destacando-se, durante a manhã, a intervenção da historiadora Maria Antónia Lopes sobre o contexto de Tentúgal, desde a anexação das confrarias de São Pedro e São Domingos, que lhe dão origem em 1583.

No âmbito da cultura imaterial, a investigadora Olga Cavaleiro e a empresária Joana Machado, membro da Associação de Pasteleiros de Tentúgal (APT), apresentaram o pastel conventual como símbolo de tradição, autonomia feminina e criação de emprego local.

Numa perspetiva de coesão territorial, Anabela Freitas, vice- -presidente do Turismo Centro de Portugal, defendeu a criação de uma oferta que alia a gastronomia ao património e turismo de natureza, propondo uma rede de espaços visitáveis com o envolvimento das Misericórdias. “O turismo só é bom se valorizar as comunidades onde o património está inserido”, assumiu.

No início da tarde, esteve em destaque a requalificação da igreja da Misericórdia de Tentúgal, que abrangeu o salão nobre, casa do despacho, sacristia e retábulo-mor, da autoria de Tomé Velho, discípulo de João de Ruão (figura central da Escola de Coimbra no Renascimento), pela equipa do Instituto de Conservação e Salvaguarda do Património.

A convite da UMP, seguiu-se um momento de partilha pelas Misericórdias, que permitiu conhecer testemunhos patrimoniais, do Minho ao Algarve, desde um conjunto pictórico do século XVII, no teto da igreja de Peniche, à evolução de um arquivo histórico com mais de cinco séculos no Porto, passando pela manutenção do cortejo de oferendas em Monforte, a requalificação da Casa Museu Dr. José Mascarenhas em Moncarapacho e a recuperação do espólio documental do Hospital António Lopes, na Póvoa de Lanhoso.

De olhos postos no futuro, a equipa do Departamento do Património Cultural da UMP definiu linhas orientadoras e apresentou projetos desenvolvidos para a salvaguarda e afirmação da identidade das Misericórdias, desde o FRDL, que abre novo concurso em 2027, aos projetos de inventário móvel (42 mil peças de 162 Misericórdias), MAPA (recenseamento de 101 irmandades extintas) e Espaço ARA (biblioteca nacional especializada em Misericórdias), que aguarda financiamento da CCDR Lisboa e Vale do Tejo.

Em representação da Santa Casa anfitriã, Isaías Craveiro, presidente da Mesa da Assembleia Geral, considerou o evento um “autêntico congresso nacional” onde se reafirmou “a memória de instituições que há cinco anos colocam a dignidade da pessoa no centro da sua missão”. Em nome da UMP, o vogal do Secretariado Nacional Nuno Reis agradeceu a presença “na edição mais participada de sempre” e louvou “as pessoas que dedicam o seu tempo a ser guardiães da nossa identidade”, deixando o convite para 2027: “Vemo-nos em Mesão Frio”.

Para o final estavam reservadas duas surpresas: uma homenagem à provedora Maria de Lourdes Santiago, pela equipa da Santa Casa, e a oferta de uma reprodução da igreja a Mariano Cabaço, que segundo a anfitriã “abriu a porta da sorte” à Misericórdia, incentivando a apresentar candidatura ao FRDL, em 2019, e concretizar a intervenção de restauro da igreja.

Voz das Misericórdias, Ana Cargaleiro de Freitas