A dificuldade inicial era a de ultrapassar a “pequena” margem de tesouraria para a “envergadura” das obras de recuperação da sua igreja, mas, para isso, os corpos sociais da Misericórdia de Tentúgal promoveram um estudo de viabilidade financeira e avançaram com uma campanha de “crowdfunding”. Ou seja, financiamento coletivo junto das pessoas e entidades interessadas em recuperar o templo construído em 1583, cuja traça se deve a Tomé Velho (um destacado discípulo de João de Ruão, figura marcante do renascimento coimbrão), bem como o portal e o retábulo do altar-mor.
A provedora Maria de Lourdes da Costa Santiago, manifestamente feliz com as obras de requalificação da igreja da Misericórdia, recordou esses tempos difíceis agudizados pela pandemia de Covid-19, os quais limitaram o alcance de um peditório que contou com a ajuda da Aposenior (Universidade Sénior de Coimbra)/ Associação Apojovi, a par da contribuição de responsáveis do Museu Nacional de Machado de Castro na realização de um “vídeo solidário”, que envolveu a comunidade, “demonstrando o estado de iminente ruína do retábulo-mor e a sua relevância na memória dos tentugalenses”.
“Mesmo assim, com os donativos recebidos, conseguimos o suficiente para sustentar a candidatura ao Fundo Rainha Dona Leonor”, expressou a provedora da Misericórdia de Tentúgal, na sessão comemorativa, logo a seguir à missa inaugural presidida pelo bispo de Coimbra, D. Virgílio Antunes.
“Como sabíamos que íamos intervir num conjunto arquitetónico dos séculos XVI, XVII e XVIII, solicitámos apoio à Câmara Municipal de Montemor-o-Velho e à Junta de Freguesia de Tentúgal. Em outubro de 2019, após visita dos técnicos do Fundo Rainha Dona Leonor, soubemos que a nossa candidatura tinha sido aceite e, em novembro, assinámos contrato com a Misericórdia de Lisboa e com a União das Misericórdias Portuguesas [UMP]”, recorda Maria de Lourdes Santiago.
Ainda segundo a provedora, através do FRDL (a garantir 233 mil euros de um orçamento global de 280 mil euros) foi concedida “verba suficiente para o arranque da obra, em junho de 2020, precisamente no início da expansão da crise pandémica de Covid-19”. Entretanto, a edilidade de Montemor-o-Velho também participou com mais de 46 mil euros. Na oportunidade, a dirigente da Misericórdia de Tentúgal disse que, além do restauro do retábulo quinhentista esculpido em pedra (com calcário proveniente de Ançã e de Portunhos), foram efetuados trabalhos de recuperação e de conservação em “todo o edifício da igreja”, incluindo “soalho novo em madeira de castanho, telhados, sacristias, salão nobre, fachadas do edifício, torre sineira, pátios e rés-do-chão da Casa do Despacho”. “Por isso, a obra demorou mais do que o previsto”, explicou Maria de Lourdes Santiago, notando que foi ainda restaurado “todo o mobiliário existente”, bem como as esculturas de madeira e em pedra.
Como salientou o presidente do Secretariado Nacional da UMP, Manuel de Lemos, igualmente presente na cerimónia, “salvaguardar o património é salvaguardar a nossa identidade”. No mesmo sentido, a provedora acrescenta: “O património é sempre um testemunho da nossa história passada e uma lição para o presente e para as gerações futuras.”
Refira-se que a Misericórdia de Tentúgal já tinha realizado uma “intervenção profunda de restauro do órgão de tubos”, proveniente do Convento de Nossa Senhora da Natividade, construído no século XVIII e considerado pelo escritor José Saramago como a “voz de Tentúgal”. A missa solene cantada e presidida pelo bispo de Coimbra foi acompanhada por este órgão, não deixando ninguém indiferente à sua sonoridade, reforçando o sinal de festa dos sinos que repicaram.
Voz das Misericórdias, Vitalino José Santos