Numa sociedade cada vez mais envelhecida – a terceira na União Europeia, com 182 idosos por cada 100 jovens (Pordata, 2025) -, o desafio já não é apenas viver mais, mas viver bem por mais tempo. Para alguns, significa descer escadas, sair de casa e conviver com amigos, para outros é sinónimo de comer e vestir-se sozinho. Por isso, a fisioterapia assume um papel determinante neste processo de envelhecimento e manutenção da força, mobilidade e autonomia em contexto de lar de idosos, apoio domiciliário e cuidados continuados.
Para envelhecer bem, a médica Rafaela Veríssimo, coordenadora do Núcleo de Estudos de Geriatria da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), defende uma abordagem integradora que considere não apenas “a doença, mas também a funcionalidade, a cognição, o estado emocional, a nutrição, a mobilidade, a fragilidade, a medicação e o contexto familiar e social”. Só assim “conseguimos viver esses anos com autonomia, dignidade, participação e qualidade de vida”, assumiu num artigo publicado na página da SPMI, no Dia Internacional do Idoso.
Nas Misericórdias, promover uma longevidade de qualidade assenta na premissa "acrescentar vida aos anos e não apenas anos à vida", alinhada com os pilares da Organização Mundial da Saúde (saúde, participação e segurança), mas enfrenta desafios decorrentes da necessidade de reformular o modelo de proteção social em Portugal, segundo Manuel de Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), no Cascais International Health Forum.
Nesta intervenção, a promoção da mobilidade é transversal a várias áreas, numa abordagem multidisciplinar, mas surge mais associada às funções da fisioterapia e psicomotricidade. Nas unidades de cuidados continuados, o foco incide na recuperação da autonomia e no regresso do utente ao domicílio, através de reabilitação intensiva, enquanto nos lares e apoio domiciliário a prioridade é a manutenção funcional e prevenção de quedas. Não sendo uma exigência legal nestas respostas sociais, muitas Misericórdias optam por integrar fisioterapeutas nos seus quadros permanentes, reconhecendo os benefícios para utentes e cuidadores, que veem facilitada a prestação de cuidados.
Ainda assim, de acordo com o vice-presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP) com o pelouro de ação social, Carlos Andrade, a realidade das Misericórdias caracteriza-se por assimetrias no acesso a este tipo de cuidados de reabilitação. Ou seja, enquanto nas unidades de cuidados continuados a fisioterapia integra o leque de serviços prestados, nos lares e outras respostas sociais a comparticipação estatal não cobre a fisioterapia preventiva e o acesso depende do financiamento dos utentes, famílias ou das próprias instituições.
“A comparticipação do Estado não contempla este serviço, o que, objetivamente, é uma falha do sistema. Trata-se de uma resposta de enorme importância para atrasar o declínio funcional e garantir a qualidade de vida dos idosos. Devia ser de acesso livre a todos os utentes no lar, mas não é o caso”, alertou. A exceção surge em situações de doença ou evento específico (queda) e o tratamento é prescrito pelo médico, através do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Em Penafiel, a fisioterapia está incluída na mensalidade base, sendo assumida como um investimento na autonomia, mesmo que isso se traduza em défice nos lares. Segundo o provedor João Oliveira, “o prejuízo destas valências é assumido para prestar um melhor serviço e alcançar autênticas vitórias, como utentes que chegam de maca e dão os primeiros passos. No fim do ano, as contas são equilibradas com receitas de outro património”.
O acompanhamento aos utentes nos três lares desta Santa Casa, num total de 105 pessoas, vai muito além das sessões no ginásio e gabinete de fisioterapia, funcionando como um ecossistema contínuo, assegurado por duas fisioterapeutas, em articulação com a restante equipa. Isso significa que, além das sessões individuais, fazem atividades em grupo, focadas no treino de força, flexibilidade e equilíbrio, que podem aliar música, dança e jogos dinâmicos, para aumentar a adesão dos utentes. Sempre que possível no exterior, o que para o provedor “tem um efeito motivador”.
“Temos um papel abrangente e de continuidade, para perceber qual é a função do utente, manter o máximo de funcionalidade e autonomia. Olhamos para o utente como um todo, não apenas pela patologia ou disfunção”, revela a fisioterapeuta de Penafiel, Marta Perestrelo.
No terreno, as instituições atestam os benefícios de aliar a dimensão lúdica, em conjunto com os animadores e psicomotricistas, com vista a aumentar o alcance e eficácia da fisioterapia.
A diretora técnica do lar da Misericórdia de Aljustrel, Ludmila Baltazar, revela que “os utentes mostram resistência a fazer certos exercícios, mas associando uma dimensão lúdica aderem mais facilmente às atividades de movimento em grupo, que envolvem também a animadora”.
Em Borba, a coordenadora dos lares corrobora a necessidade de “criar dinâmicas diferentes para motivar os utentes”, através de caminhadas, circuitos motores ou competições de boccia. Segundo Ana Baptista, “por defeito, todos têm acesso à fisioterapia, como um pressuposto para um envelhecimento ativo, com mais funcionalidade e qualidade de vida, basta quererem e poderem”. Os resultados são notados por todos: utentes e cuidadores (formais ou informais).
A fisioterapia atua na prevenção, muito antes da doença. Contudo, os utentes chegam às instituições cada vez mais velhos e frágeis, limitando a intervenção. Por um lado, obriga a definir objetivos ajustados à realidade e, por outro, a gerir as expetativas dos familiares. “Alguns acham que os pais ficam melhores quando chegam, mas nem sempre é possível”, admite o coordenador de fisioterapia da Misericórdia de Sines, Guido Marinho, acrescentando que “hoje as pessoas chegam ao lar muito dependentes e há falta de pessoal, vamos gerindo as prioridades, mas é como se estivéssemos a remar contra a corrente”.
Neste centro de fisioterapia, convivem utentes externos e internos, com idades, contextos e necessidades distintas, desde fraturas, doenças neurológicas, lesões desportivas e laborais. O acesso é feito mediante prescrição do fisiatra da Santa Casa e pode ser financiado por seguros de saúde, familiares e utentes. Quando tal não é possível, a instituição assume o custo.
Florival de Jesus, 65 anos, recuperou a marcha autónoma, após três meses de fisioterapia, na sequência de uma fratura e internamento hospitalar, onde perdeu 15 quilos de massa muscular. Hoje consegue levantar-se, tomar banho e sair à rua. Uma vitória alcançada com o esforço de todos e uma relação de proximidade com a equipa, que “faz toda a diferença na recuperação”.
Segundo Guido Marinho, o objetivo desta intervenção foi “recuperar e prolongar ao máximo a autonomia” não só para benefício do utente, mas das próprias cuidadoras porque “se torna mais fácil cuidar”, adiantando que o caso de Florival não representa a maioria. “A maior parte tem demências e neste caso o objetivo é prolongar a mobilidade e amplitude de movimento porque as pessoas vão ficando com alguma rigidez e queremos evitar que fiquem acamados”. Em cada momento, as prioridades são geridas em função das necessidades e recursos disponíveis para “dar vida aos anos”.
No centro de fisioterapia da Misericórdia de Sines, convivem utentes externos e internos, com idades, contextos e necessidades distintas, desde fraturas, doenças neurológicas e outras lesões.
Desafio é viver com saúde e autonomia
Promover uma longevidade saudável, autónoma e digna deve considerar aspetos como o movimento, mudanças no estilo de vida e uma intervenção clínica multidisciplinar, ouviu-se no debate promovido no Open Day da Misericórdia de Barcelos, a 19 de setembro, sobre “Medicina física e de reabilitação e o envelhecimento ativo”, com especialistas de várias áreas.
Nesta reflexão, a funcionalidade e conservação do músculo foram assumidas como prioridades clínicas pela médica fisiatra Armanda Pinto, justificando que o músculo vai além da locomoção e movimento, enquanto “sistema metabolicamente ativo, essencial na regulação inflamatória, imunitária e cardiovascular”. Segundo a diretora técnica do centro de medicina física e de reabilitação da Santa Casa, o acompanhamento no envelhecimento deve considerar fatores como treino de força, gestão de stress, alterações hormonais, sono e resistência à insulina.
Só desta forma, corrobora o médico Miguel Ornelas Azevedo, é possível desacelerar os danos do envelhecimento e atuar em mecanismos como a “disfunção mitocondrial (capacidade de produzir energia), senescência (paragem da proliferação celular) e inflamação crónica”.
Segundo o especialista de medicina geral e familiar, “os estilos de vida atuam sobre estes mecanismos, desde o exercício físico, nutrição, sono, estimulação cognitiva, consumo de álcool e tabaco, sendo, neste conjunto, a “conexão social a intervenção mais subvalorizada”.
Por sua vez, o fisioterapeuta Carlos Esteves sublinhou a importância de ajustar os planos de intervenção ao perfil de cada idoso, desde o mais ativo ao doente frágil e dependente, recomendando, para estes últimos, fisioterapia respiratória, hidroterapia, estimulação sensoriomotora ou exercícios específicos para prevenção de quedas. Como rotina diária para a maioria dos idosos sugeriu 30 minutos de caminhada e sessões de fortalecimento duas a três vezes por semana, com o lema “mais movimento, mais saúde, mais autonomia”.
O verdadeiro desafio do século XXI é viver com mais saúde, autonomia e funcionalidade, assumiram os especialistas. “Envelhecer preservando funções e a funcionalidade não é apenas autonomia, é ter capacidade de tomar decisões”, acrescentou a fisiatra Armanda Pinto.
O Open Day também contou com o testemunho de duas utentes de lar, que frequentam o Centro de Medicina Física e de Reabilitação.
Apenas um terço dos idosos vive sem limitações
Quase metade dos idosos (45,9%) têm dificuldade em fazer pelo menos uma tarefa doméstica e só menos de um terço vive sem limitações, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, no início de outubro. As dificuldades nos cuidados pessoais (16,9%), em mastigar (17,1%) e subir escadas (16,9%) são as mais referidas, a que se juntam a utilização de transportes (16,9%), acesso a edifícios (16%) e mobilidade fora de casa (15,7%). As mulheres são as mais afetadas pelas limitações motoras, com 46,8% em relação aos homens (27,2%).
Dicotomia entre manutenção e reabilitação
Nas unidades de cuidados continuados, a realidade é distinta dos lares, desde logo pela presença obrigatória do fisioterapeuta e pelo foco da intervenção
Nas unidades de cuidados continuados, a realidade é distinta dos lares, em vários aspetos, desde logo pela presença obrigatória do fisioterapeuta e pelo foco da intervenção, visando reverter uma situação de incapacidade para devolver o utente ao contexto de origem.
Vítor Manuel Martins, 83 anos, chegou em julho à unidade da Misericórdia de Alhos Vedros, após uma fratura (bacia) e internamento hospitalar. Encontramo-lo a fazer treino de escadas, com um andarilho, numa sessão de fisioterapia orientada por Marta Silva. O objetivo definido por ambos é voltar a casa e preparar-se para as escadas na entrada do prédio.
“Voltar para junto da mulher e da gata Mia, que tem este nome porque não mia”, acrescenta divertido. Este sentido de humor é acompanhado, na mesma medida, por teimosia, que tem sido útil na recuperação. Mas admite que a adaptação foi difícil. “Estava aposentado [ensino] há 20 anos, habituado a fazer o que queria, e foi como voltar à escola, desta vez como aluno”. A fisioterapeuta testemunha a sua evolução: “Não volta ao que era, mas dentro da limitação teve ganhos”.
No dia da nossa visita, Maria Osvaldo, 60 anos, estava prestes a terminar a estadia de 90 dias, também na tipologia de média duração, após um AVC que lhe condicionou a fala e locomoção. “Recuperei muito, tive muita força e esperança, sem isso continuava sem falar”. A recuperação envolveu, além da fisioterapia, terapia ocupacional e da fala, avaliação médica e controlo de fatores de risco (hipertensão, obesidade e tabagismo) para “viver o melhor possível no futuro”.
Sentado em frente, Fábio Neto, 41 anos, tem esclerose múltipla, uma doença neurológica degenerativa, que pode provocar dificuldades motoras, de equilíbrio e espasticidade (rigidez muscular). Uma aprendizagem “difícil” para quem descobriu a doença aos 24 e aprende todos os dias a viver. “Um dia de cada vez, o objetivo agora é manter os movimentos dos braços”.
Todos os cenários são estudados e avaliados pela equipa técnica, em articulação com a família e possíveis cuidadores, em função da situação clinica do utente e recursos disponíveis na comunidade. Comos nos explica Helena Fernandes, “a alta é preparada desde o momento da admissão. Os 90 dias passam num ápice e nós temos de colaborar com as famílias, dar-lhes listas de lares, informação sobre apoio domiciliário na área de residência, ajudamos a tratar de subsídios para que usufruam dos seus direitos porque muitas vezes não têm conhecimento”.
Nesta interação, a equipa da Santa Casa procura que a “família assegure a inscrição em lares, mas nem sempre eles assumem as altas porque legalmente nada os obriga a fazê-lo e as mensalidades dos lares são mais dispendiosas, além de incluir menos serviços”, esclareceu a diretora técnica, apelando a uma “reformulação do sistema para haver maior rotatividade nas unidades”.
O caminho não é igual para todos, mas há metas comuns: viver bem, o melhor possível. Garantir que todos, independentemente do seu contexto socioeconómico, tenham acesso ao movimento e à reabilitação para que a longevidade seja sinónimo de felicidade e bem-estar.
Voz das Misericórdias, Ana Cargaleiro de Freitas