Seis colaboradores da Misericórdia de Jequié, no Brasil, estão agora na Misericórdia do Peso da Régua para aprender mais sobre práticas de saúde

A Santa Casa da Misericórdia do Peso da Régua e a de Jequié, no Brasil, estão a fazer um intercâmbio entre colaboradores para promover e adquirir as práticas de saúde que são aplicadas em cada país.

Durantes duas semanas, quatro colaboradoras do Peso da Régua estiveram no estado da Bahia. Agora, seis colaboradores da Santa Casa de Jequié estão, ao longo deste e do próximo mês, na Misericórdia do Peso da Régua.

Uma iniciativa única e diferenciadora que promove o intercâmbio entre os dois países de língua portuguesa, para troca de conhecimentos, uma vez que em Portugal as Misericórdias estão vocacionadas para a área da ação social, no apoio a crianças e idosos, e no Brasil para a área da saúde, com a criação de hospitais.

“Como temos cuidados continuados, faz todo o sentido irmos lá beber alguma da experiência dos conhecimentos que têm, não em termos hospitalares, mas algumas práticas hospitalares. O Brasil está muito interessado nas Misericórdias na área dos cuidados continuados, é uma área que pretendem desenvolver”, explicou o provedor da Misericórdia do Peso da Régua, Manuel Mesquita.

O responsável considera que esta ação é uma mais-valia para a instituição e para os seus utentes. “Aquilo que vamos colher e os fatores positivos ultrapassam, de longe, a distância [entre os dois países] e voltarmos ao início daquilo que foi a criação das Misericórdias, envolvendo os dois países, é uma situação única”, vincou Manuel Mesquita.

Cristiana Queirós, diretora técnica da estrutura residencial para idosos, e Rosa Mendes, diretora técnica da unidade de cuidados continuados, foram duas das colaboradoras da Santa Casa do Peso da Régua que estiveram no Brasil.

O tratamento aplicado às crianças autistas foi uma das aprendizagens destas colaboradoras. “Têm uma equipa multidisciplinar que trabalha com a criança autista e com a família, que foi o que puxou bastante o nosso interesse e que nós em Portugal, creio, não praticamos”, adiantou Cristiana Queirós.

“Um conjunto de técnicos, de forma multidisciplinar, acompanham a mesma criança, ou seja, eles reúnem e todos colaboram para o processo ou plano individual de reabilitação daquela criança, envolvendo também a família”, acrescentou Rosa Mendes. Um trabalho “em rede” que dizem não ver em Portugal e que admitem ser surpreendente.

Embora reconheçam que não têm nenhum utente ou criança com autismo na instituição, defendem que é importante adquirir conhecimento na área, porque mais tarde pode vir a ser útil, estando já um passo à frente de outras instituições.

Além de terem conhecido terapias, no âmbito deste espectro, as duas diretoras assistiram ainda a uma operação aos olhos e a um parto por cesariana e aprenderam práticas de amamentação.

Uma experiência enriquecedora, que gostavam de repetir. Cristiana Queirós realçou a relação com o “país irmão”, que espera que continue a ser “próxima”. Já Rosa Mendes destacou que este intercâmbio permitiu ver “outras perspetivas na forma de cuidar”, mas também conhecer “pessoas extraordinárias”.

Por outro lado, os seis colaboradores da Misericórdia de Jequié estão no Peso da Régua com o objetivo de compreender quais as técnicas e práticas aplicadas na unidade de cuidados continuados.

Este é um serviço que ainda não disponibilizam e reconhecem que é o próximo passo da instituição, mas, para isso, precisam de adquirir conhecimento.

“Cada vez nascem menos crianças, as pessoas estão a tornar-se mais idosas, vivem mais e entendemos a necessidade de assistência para essa população e nós não temos, no nosso país, um serviço que seja intermediário entre a rede hospitalar e a rede de ambulatório”, referiu Luciana Moreira, fisioterapeuta e coordenadora do núcleo de reabilitação da Fundação José Silveira, que pertence à Misericórdia de Jequié.

Mas além das práticas de saúde, também o processo de humanização aplicado na unidade de cuidados continuados da Misericórdia do Peso da Régua está a chamar a atenção dos colaboradores do país vizinho, podendo ser um ponto de partida para “repensar no sistema de saúde” brasileiro.

“Para se pensar na humanização é preciso repensar processos, repensar protocolos clínicos, tivemos contacto com a metodologia que a unidade trabalha e podemos observar, passo a passo, a importância de cada profissional na condução técnica de cada serviço e procurar conhecimento, que é outro aspeto importante da perspetiva da inovação”, afirmou o psicólogo Leonardo Augusto, coordenador técnico das equipas das unidades hospitalares e maternidades da Fundação José Silveira.

Segundo o profissional, saúde é também promover o contacto social, nomeadamente entre o doente e a família. “Tivemos a oportunidade de assistir a uma atividade na unidade de longa duração [da Misericórdia do Peso da Régua], que envolveu estimulação cognitiva. Vimos como isso acontece de forma intensa. O utente estava a participar, mas de forma contida, e isso muda quando chega o familiar. Rapidamente ele começa a tentar, começa a participar e isso chamou muito a atenção da nossa equipa, a importância da família nos cuidados”, contou.

A unidade de cuidados continuados da Santa Casa do Peso da Régua tem capacidade para 26 pessoas em longa duração e manutenção.

Voz das Misericórdias, Ângela Pais