“Somos a primeira instituição de economia social no mundo a propor esta abordagem das obras de misericórdia aos objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS), mas só faz sentido com uma adesão global”, assumiu o presidente da União das Misericórdias Portuguesas, na apresentação do projeto ‘Misericórdias do Futuro’, a 18 de abril, convidando a concretizar no terreno esta visão de futuro. Numa lógica de proximidade, seguiu-se um momento de reflexão a 23 de abril, na Amadora, com Misericórdias e entidades parceiras, onde se defendeu o papel transformador das pessoas no território, a natureza local das soluções e a imprescindibilidade dos números na medição do progresso. Sobre a ligação proposta entre ODS e obras de misericórdia, o vice-presidente José Rabaça, responsável pela operação ‘Capacitação UMP-Misericórdias’, admitiu, na apresentação de 18 de abril, que “as obras de misericórdia reúnem princípios e propostas de intervenção que espelham de forma pragmática os desafios propostos pela Organização das Nações Unidas”.
Financiada pelo Pessoas 2030 (programa ‘Demografia, Qualificações e Inclusão’), esta operação incidiu no reforço da gestão e afirmação da identidade da União e das Misericórdias. Pedro Esteves, gestor de projeto que acompanhou a operação, considerou a iniciativa “muito interessante e atual, permitindo alavancar as competências das Misericórdias para o futuro”.
Este projeto teve como ponto de partida a “atualização de uma linguagem antiga, ao nível da redação e interpretação de conceitos, para facilitar a compreensão pela sociedade”, revelou Bethania Pagin, diretora do Departamento de Comunicação e Imagem, responsável pela ideia original com Mariano Cabaço, coordenador da operação ‘Capacitação UMP-Misericórdias’. Desta forma, abrem-se possibilidades de leitura e ação pelas Misericórdias, posicionando-as como “instituições embaixadoras na concretização dos ODS, em Portugal”, assumiu.
Esta atualização traduz-se numa nova redação para as catorze obras de misericórdia. No caso da obra espiritual “dar bons conselhos”, a versão proposta no âmbito do projeto - “orientar com sabedoria e respeito” - contribui para “quebrar a hierarquia da assistência e igualar todos os intervenientes: prestadores e beneficiários”, exemplificou a técnica da UMP.
Parceiro na iniciativa e autor do livro ‘Comprometidos com o Futuro’, Paulo Fidalgo constatou “com estupefação a cor - respondência quase literal entre as obras de misericórdia e os ODS, que têm em comum a intenção de se constituir como programa de ação. Não temos de inventar nada, só traduzir algumas palavras para nos compreenderem melhor”. Esta relação constitui “uma oportunidade para as Misericórdias uma vez que, através desta integração num ecossistema mais universal, ganham novas metas, tarefas e territórios de afirmação”, referiu o consultor de comunicação.
Os 17 ODS constituem a agenda do mundo para 2030, subscrita por 193 Estados Membros, a 25 de setembro de 2015, numa cimeira em Nova Iorque (EUA). Apesar de ser uma agenda global, cedo se percebeu que não seria possível atingir os ODS sem uma atuação local.
Neste contexto, organizações como os municípios e entidades de economia social são boas aliadas na concretização das metas. Os primeiros estão organizados na plataforma ODS Local, que monitoriza este progresso, com 144 municípios registados (47% do total) e 2030 projetos locais. Em relação às segundas, é possível acompanhar a evolução de alguns indicadores na plataforma Base Dados Social, desenvolvida pelo Nova SBE Data Knowledge Center.
Segundo a gestora do projeto Base de Dados Social, Cátia Cohen, a “plataforma tem registadas 380 Misericórdias, que se posicionam sobretudo ao nível do ODS 1 – Erradicar a Pobreza (54%), seguindo-se o ODS 10 – Reduzir as Desigual - dades (23%) e o ODS 3 – Saúde de Qualidade (19%)”. Neste mapeamento, o maior desafio prende-se com “a adequação de indicadores globais a intervenções locais, que são o foco das Misericórdias e entidades de economia social, sendo que nem tudo é mensurável porque falamos de mudar vidas”.
Nas apresentações, em Fátima e Amadora, os técnicos e dirigentes das Misericórdias reagiram com surpresa e entusiasmo ao projeto, manifestando interesse em replicá-lo na comunidade, com o apoio dos materiais distribuídos nas duas sessões (livro ‘Comprometidos com o futuro’, jogo ‘À descoberta das Misericórdias com os ODS’ e cartazes com a nova redação das obras).
“O tema é atualíssimo e carece de uma reflexão urgente. Ver a UMP a pensar sobre os ODS alinhados com as Misericórdias é constatar a atualidade de uma missão que tem perdurado estes séculos. Cabe-nos a nós agora aplicar nas Misericórdias e comunidades”, considerou Patrícia Seromenho, provedora de Albufeira, lançando o desafio de divulgar o jogo nas escolas.
Segundo Paulo Gravato, provedor de Vagos, “a partir das 14 obras de misericórdia e 17 ODS da ONU vamos dar um impulso forte para que as Misericórdias se transformem e adaptem a sua filosofia e objetivos para chegar a mais pessoas e construir um futuro melhor”, revelou ao VM.
Mesmo dentro das instituições, Maria Infante, diretora técnica do Lar de Santo António (Amadora), considera necessário “promover junto dos colaboradores a reflexão sobre as 14 obras de misericórdia e pensar numa nova interpretação para elas aos dias de hoje”.
Para Sofia Valério, diretora coordenadora técnica da Santa Casa de Almada, “as Misericórdias e entidades de economia social são as melhores aliadas na concretização dos ODS porque sabem ouvir as pessoas e traduzir objetivos globais em projetos de participação local”. Nesta senda, a mesária da Santa Casa, Teresa Pereira, considerou prioritária “esta atualização da linguagem, objetivos e práticas para chegar a mais públicos e clarificar os limites da intervenção”.
Anfitriã do evento de 23 de abril, a Misericórdia da Ama - dora integra, desde 2022, na sua estratégia global os 17 ODS, focando-se na erradicação da pobreza, educação de qualidade, igualdade de género e energia limpa e acessível, com o objetivo de fazer uma “adequação a uma linguagem mais familiar e universal”, revelou o provedor Constantino Pinto, deixando o apelo à ação: “Sejamos capazes de colocar em prática o objeto da nossa reflexão”.
Na abertura do debate, o moderador Nuno Reis, vogal do Secretariado Nacional da UMP e diretor do VM, lembrou que a “ONU foi uma construção de paz e é para isso que também trabalhamos, sobretudo num momento em que a paz é tão questionada, sendo esta uma oportunidade para colocar na ordem do dia as obras de misericórdia e integrá-las nos ODS”.
Para o jornalista e diretor da Agência Ecclesia, Paulo Rocha, “só conseguimos contrariar esta narrativa bélica com uma lógica de fraternidade e através das pessoas e bons exemplos. Precisamos de alguém que nos inspire e transmita confiança”. Neste âmbito, considerou que os meios de comunicação social têm um papel decisivo na transmissão desta mensagem de esperança, coadjuvados pelos dirigentes, trabalhadores e utentes das próprias instituições.
Depois da reflexão, passamos à visita ao primeiro bairro, no mundo, embaixador dos ODS. Uma experiência única, dinamizada pela Associação CAZAmbujal, que promove o confronto de ideias e contacto com as pessoas que dão vida aos murais do Zambujal.